quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Obalwaiê - Omolu


OBALUAIYÉ

Obaluaiyê quer dizer "rei e dono da terra" sua veste é palha e esconde o segredo da vida e da morte. Está relacionado à terra quente e seca, como o calor do fogo e do sol - calor que lembra a febre das doenças infecto-contagiosas. Domina completamente as doenças que rege. Ao mesmo tempo em que as causa, tem poder de cura sobre elas.

                                 Lenda


Nanã era considerada a deusa mais guerreira de Dahomé. Um dia, ela foi conquistar o reino de oxalá e se apaixonou por ele. Mas este não queria se envolver com outra orixá que não fosse sua amada esposa Yemonjá. Por isso, explicou tudo a nanã, mas ela não se fez de rogada. Sabendo que oxalá adorava vinho de palma, embriagou-o. Ele ficou tão bêbado que se deixou seduzir por nanã, que acabou ficando grávida. Mas por ter transgredido uma lei da natureza, deu a luz a um menino horrível, não suportando vê-lo, lanço-o no rio. A criatura foi mordida por caranguejos, ficando toda deformada. Por sua terrível aparência, passou a viver longe dos outros orixás. De tempos em tempos os orixás se reuniam para uma festa. Todos dançavam menos obaluaiyê, que ficava espreitando da porta, com vergonha de sua feiúra. Ogum percebeu o que acontecia e, com pena, resolveu ajudá-lo, trançando uma roupa de mariwo - uma espécie de fibra de palmeira - que lhe cobriu todo o corpo. Com este traje ele voltou à festa e despertou a curiosidade de todos, que queriam saber quem era o orixá misterioso. Yansã, a mais curiosa de todas, aproximou-se, e neste momento, formou-se um turbilhão e o vento levantou a palha, revelando um rapaz muito bonito. Desde então os dois orixás vivem juntos, e os dois passaram a reinar sobre os mortos.

CONSIDERAÇÕES DE JEDJE

Sakpatá

Para o povo Jeje, Sakpatá foi trazido para o Dahomey, por Agajá, no século XVIII, vindo da cidade de Dassa Zoumé, mais precisamente, da aldeia de Pingine Vedji.
            Todos os Voduns, pertencentes ao panteão de Sakpatá, são da família Dambirá. 
Nesse panteão temos vários Voduns. O mais velho que se tem notícia é Toy Akossu, no transe, ele se mantém deitado na azan (esteira). Dizem os mais velhos, que Toy Akossu é o patrono dos cientistas, ele dá a eles inspirações para a descoberta das fórmulas mágicas que curarão as doenças e as pestes. Ele é a própria "doença e cura", como também um excelente conselheiro.
            Toy Azonce é um outro Vodum velho, porém mais novo que Toy Akossu. Seu assentamento fica em local bem isolado do Kwe, sendo proibido tocá-lo. Somente uma pessoa designada por ele mesmo pode tratar desse assentamento. É Toy Azonce quem sempre faz todas as honras para seu irmão Toy Akossu, quando ele está em terra. 
Toy Abrogevi é um Vodum velho, filho de Toy Akossu, que gosta de comer quiabo com dendê, paçoca de gergelim e fumar cachimbo de barro. Toy Abrogevi gosta muito de Badé e se tornou muito amigo dele. Foi com Badé que aprendeu a comer e a gostar de quiabo.
            São tantos Voduns desse panteão que seria praticamente impossível descrever cada um aqui. Esses Voduns são rigorosos no que tange a moral e os bons costumes. Nunca admitem falhas morais dentro dos kwes e, quem faz essa fiscalização para eles é Ewá, filha de Toy Azonce.
            As cores de contas e roupas usadas por esses Voduns podem variar de acordo com o gosto de cada um. Todos usam roupas feitas de palha da costa sendo umas mais curtas e outras mais compridas. Sakpatá usa todas as cores e o estampado, sempre com a presença das cores escuras.
Símbolo fortemente ligado a Sakpatá, a palha da costa é a fibra da ráfia, obtida de palmas novas, extraídas de uma palmeira cujo nome científico é raphia vinifera. No Brasil, recebe o nome de Jupati. A palmeira é considerada a "esteira da Terra". 
A palha da costa, tendo sua origem na palmeira, ganha o simbolismo universal de ascensão, de regenerescência e da certeza da imortalidade da alma e da ressurreição dos mortos. Um símbolo da alma. Além de proteger a vulnerabilidade do iniciado, sua utilização também é reservada aos deuses ancestrais, numa reafirmação de sua ancestralidade, eternização e transcendência.
            Os Sakpatás podem trazer nas mãos o xaxará, ou o bastão, a lança, o illewo ou ainda, uma pequena espada. A maioria deles gostam de manter o rosto coberto pela palha da costa, outros gostam de mostrar o rosto. Todos gostam muito de usar búzios e chaorôs (guizos).
O búzio simboliza a origem da manifestação, o que é confirmado pela sua relação com as águas e seu desenvolvimento espiralóide a partir de um ponto central. Simboliza as grandes viagens, as grandes evoluções, interiores e exteriores. É associado às divindades ctonianas, deuses do interior da terra. Por extensão, o búzio simboliza o mundo subterrâneo e suas divindades.
O chaorô (SAORÓ) (guizo) tem simbologia aproximada a do sino, sobretudo pela percepção do som. Simboliza o ouvido e aquilo que o ouvido percebe o som, que é reflexo da vibração primordial. A repercussão do chaorô é o som sutil da revelação, a repercussão do Poder divino na existência. Muitas vezes têm por objetivo fazer perceber o som das leis a serem cumpridas. Universalmente, tem um poder de exorcismo e de purificação, afasta as influências malignas ou, pelo menos, adverte da sua aproximação. Sem dúvida, simboliza o apelo divino ao estudo da lei, a obediência à palavra divina, sempre uma comunicação entre o céu e a terra, tendo também o poder de entrar em relação com o mundo subterrâneo.
O lakidibá fio de conta de Sakpatá, é feito do chifre do búfalo. Tem o sentido de eminência, de elevação, símbolo de poder, um emblema divino. Ele evoca o prestígio da força vital, da criação periódica, da vida inesgotável, da fecundidade. Devemos lembrar que chifre, em hebraico "querem", quer dizer, ao mesmo tempo, chifre, poder e força. 
O lakidibá não sugere apenas a potência, é a própria imagem do poder que Sakpatá tem sobre a vida e a morte. Na conjunção do lakidibá e do deus Sakpatá, descobrimos um processo de anexação da potência, da exaltação, da força, das quatro direções do espaço, da ambivalência. Encontramos o lakidibá em duas cores: preto e branco. Ele também contém a bondade, a calma, a força, a capacidade de trabalho e de sacrifício pacífica do chifre do búfalo, de onde origina-se. Rústico, pesado e selvagem, o búfalo é também considerado divindade da morte, um significado de ordem espiritual, um animal sagrado. Na África, o búfalo (assim como o boi), é considerado um animal sagrado, oferecido em sacrifício, ligado a todos os ritos de lavoura e fecundação da terra. O lakidibá é entregue ao adepto somente na obrigação de sete anos. Presença certa em tudo ligado a Sakpatá, o duburu (pipoca) representaria as doenças de pele eruptivas, cujo aspecto lembra os grãos se abrindo. Jogar o duburu assumi o valor e o aspecto de uma oferenda, destreza e resistência. O ato de jogar se mostra sempre, de modo consciente ou inconsciente, como uma das formas de diálogo do homem com o invisível. Tem por alvo firmar uma atmosfera sagrada e restabelecer a ordem habitual das coisas, é fundamentalmente um símbolo de luta, contra a morte, contra os elementos hostis, contra si mesmo.
Os narrunos para esses Voduns devem sempre ser feitos com o sol forte e cada um deles especifica o que querem comer. Isso quer dizer que, não existe uma única maneira de agradá-los. Eles não gostam de barulho de fogos de artifícios. Uma vez por ano, os Kwes fazem um banquete para as Divindades do Panteão de Sakpatá, onde devemos comer, dançar e cantar junto com os Voduns.
 Os demais Voduns do panteão da terra, sempre são convidados a compartilhar desse banquete. Os jejes acreditam que, com essa cerimônia oferecida a essas divindades, todas as doenças são despachadas do caminho do Kwe e de seus filhos.
Esse banquete é colocado dentro do peji ou do quarto onde mora Sakpatá e os demais Voduns de seu panteão. Toda a comunidade vêm saudar o Deus da varíola e seus descendentes, comer e dançar junto com eles e, ali mesmo, é servido o banquete para todos os presentes.
Após essa cerimônia, Sakpatá e os demais Voduns, vestem suas roupas de festa e vão para a Sala (barracão) comemorarem seu grande dia, junto com a comunidade que os aguardam. Quando entram na Sala, todos gritam louvores a eles, dançam  e cantam, louvando o Deus da varíola, que traz a cura de todas as doenças.

Suas danças e cânticos lembram sempre os doentes, as doenças e a cura das mesmas. Algumas falam das lutas que esses Voduns enfrentaram com a rejeição das comunidades com sua presença e outras falam das vitórias que tiveram sobre todas as comunidades que a eles vieram pedir ajuda.
Os Sakpatás trabalham muito e têm um importantíssimo papel nas feituras de Voduns. Do início ao fim de uma ahama (barco de yaô), eles atuam com rigidez e vigor, mantendo o bom andamento, principalmente dos bons costumes morais e, cobram "feio" caso alguém cometa alguma falha. Eles são, na verdade, as testemunhas de uma feitura. Após a feitura, se um filho negar alguma coisa que tenha sido feita, eles são os primeiros a cobrarem desse vodunci a mentira que ele está dizendo, assim como também cobram a quebra de segredos. Todas as folhas refrescantes para ferimentos, pertencem a esses Voduns. Vale alertar que existem Orixás e Inkices também ligados a cura e doenças porém, não são os mesmos deuses que os Voduns da família Dambirá, da nação Jeje. Muitas confusões são feitas e, encontramos várias bibliografias relatando origens, especificações e costumes que nada têm a ver com o Vodum Sakpatá.
Associado na África, onde houve, e ainda ocasionalmente, grandes endemias e epidemias. Obalúayé; "Rei dono da Terra”, Omolu "Filho do Senhor", Sapata "Dono da Terra" são os nomes dados a Sànpònná (um título ligado a grande calor - o sol - também é conhecido como Babá Igbona = pai da quentura) deus da varíola e das doenças contagiosas, é ligado simbolicamente ao mundo dos mortos.
Outra corrente os define como: Obaluaye: Obá - ilu; aiye; Rei, dono, senhor; da vida; na terra; Omolu; Omo-ilu; Rei, dono, senhor; da vida. Canjanjá na Angola.          Sua dança o Opanijé (cuja tradução é: ele mata qualquer um e come), como um ser doente onde mostra suas feridas, o céu e a terra, sua lenda, em outras danças, dança curvado para frente, como que atormentado por dores, e imitam seu sofrimento, coceiras e tremores de febre.
Sua "arma" (emblema) é o Xaxará (Sàsàrà), espécie de cetro de mão, feito de nervuras da palha do dendezeiro, enfeitado com búzios e contas, em que ele capta das casas e das pessoas as energias negativas, bem como "varre" as doenças, impurezas e males sobrenaturais.
Esta representação nos mostra sua ligação a terra, ao tronco e ramo das árvores, transporta assim o Asé (axé) preto, vermelho e branco. Está relacionado com o axé preto (terra), contido no segredo do "ventre fecundado" e com os espíritos contidos na terra. Suas contas como Omolu são vermelho, preto e branco, como Obaluayie o preto e branco, como Xapana, o preto e vermelho.
Também usa o lagidiba, seu colar ritual feito de pequenos discos preto de chifre de búfalo cortado em rodelinhas, é usado para proteger de doenças e tem uma conotação de grau hierárquico. Faz muito uso dos cauris (búzios) em seu brajá (colar de búzios) e nos paramentos. Em uma região é ligado a riqueza e patrono dos cauris e conjunto de 16 búzios + 1 da leitura esotérica "érindílogun".
Owó nlá bànbà -----------------Dinheiro(cauris) grande, imenso.
Ójísè owó nlá bànlà-----------Mensageiro da riqueza
Owó nlá bànbà -------------dinheiro grande, imenso.
Na Nigéria os owo érindínlogun adoram Obaluaiyé e usam, no punho esquerdo, uma tira de Igbosu (pano africano) onde são costurados cauris esó. Sua Saudação é "Atoto" quer dizer; Silêncio escute; hora da devoção. Sua vestimenta é feita de ìko, é uma fibra de ráfia extraida do Igí-Ògòrò, a "palha da costa”, elemento de grande significado ritualístico, principalmente em ritos ligados a morte e o sobrenatural, sua presença indica que algo deve ficar oculto.
É composta de duas partes o "Filá" e o "Azé". A primeira parte, a de cima que cobre a cabeça é uma espécie de capuz trançado de palha da costa, acrescido de palhas em toda sua volta, que passam da cintura. O Azé, seu asó-ìko (roupa de palha) é uma saia de palha da costa que vai até os pés em alguns casos, em outros, acima dos joelhos, por baixo desta saia vai um Xokotô, espécie de calça, também chamado "cauçulú", em que oculta o mistério da morte e do renascimento.
Nesta vestimenta acompanha algumas cabaças penduradas, onde supostamente carrega seus remédios. Ao vestir-se com ìko e cauris, revela sua importância e ligação com a morte. Sua festa anual é o Olubajé, (Olu-aquele que, ba-aceita, jé-comer ; ou ainda aquele-que-come), são feitas oferendas e são servidas suas comidas votivas, seus "filhos" devidamente "incorporados" e paramentados oferecem as mesmas aos convidados/assistentes desta festa, em folhas de bananeira ou mamona.
Suas quizilas (proibições) mudam de casa para casa, e de nação para nação; carneiro, peixe de rio de couro, caranguejo, carne de porco, pipoca, jaca... Tido como filho de Nana, no Brasil, sua origem, forma, nome e culto na África é bastante variado, de acordo com a região, essa variação de nomes é de conformidade com a região, Obaluaye/Xapanã em Tapá (nupê) chegando ao território mahi ao norte do Daomé; Sapata é sua versão fon, trazido pelos nagôs.
Em alguns lugares se misturam em outros são deuses distintos, confundido até com Nana Buruku; Omolu em keto e Abeokutá. Seu parentesco com Oxumare e Iroko é observado em Keto (vindo de Aisê segundo uns e Adja Popo segundo outros), onde pode se ver uma lança (oko Omolu) cravada na terra, esculpida em madeira onde figuram esses tres personagens superpostas. Também em Fita próximo de Pahougnan, território Mahi, onde o rei Oba Sereju, recebera o fetiche Moru, tres fetiches ao mesmo tempo Moru (Omolu), Dan (Oxumare) e seu filho Loko (Iroko).

OBALUWAYE é um EBORA primordial e assim associado à criação e considerado como o grande regente do planeta. A terra, no sentido mais amplo da palavra, é sua matéria de origem, sobre a qual detém o poder e domínio absolutos. A terra é uma unidade cósmica, viva e ativa. Ela é o fundamento de todas as manifestações. Tudo o que compõe a terra, ou seja, sua extensão, a variedade de seu relevo e da vegetação que nela cresce, enfim, tudo o que está sobre a terra está em conjunto e constitui uma grande unidade. A terra encontra-se no começo e no fim de toda a vida. Toda a forma nasce dela, viva, e retorna para ela no momento em que a parte de vida que lhe tinha sido concedida se esgotou. OBALUWAYE está relacionado à terra e à tudo o que dela advém, ao retorno, ao pó, à transformação, à regeneração, ao renascimento, pois é sabido que "tudo o que sai da terra é dotado de vida e tudo o que volta para a terra é de novo provido de vida". TB é um vodun Gêge conhecido por Sapatá, sendo também cultuado por outras nações. Poderoso orixá, filho de Nanan Buruku (Anabioko) e Orixalá (Oulissassa). Esse orixá, senhor das doenças e da morte, é representado pelas três cores primitivas do universo (de onde todas se formaram), que são o vermelho, o preto e o branco. Isso quer dizer que ele detém os três tipos de sangue, ou axés, que existem na natureza. Obaluaye está ligado ao elemento terra, sendo detentor de seus segredos. Tem, também, ligação com as árvores e com os espíritos que as habitam. Ele é extremamente temido e respeitado, mas, ao mesmo tempo, é indispensável, com uma atuação muito grande dentro dos rituais do Candomblé. Todos o temem, por enviar as doenças, muitas vezes, como castigo ou como desígnios divinos para uma renovação da vida. Da mesma forma que ele traz as enfermidades (como lepra, peste, eczemas, varíola, malária, etc., que provocam alteração na temperatura corporal), traz também a cura para elas. Segundo as antigas lendas, Obaluayê nasceu com o corpo todo coberto por chagas, que ficavam escondidas sob suas vestes de palha. Foi através da sua própria força interior que ele conseguiu curar-se e também desvendar os segredos das doenças que atingem os seres criados. Assim como Ossain, que usa as folhas para curar, Obaluayê usa seu xaxará para limpar a Terra de todas as doenças e pragas. Esse orixá também tem um papel fundamental nos ebós realizados pelo Candomblé, que são rituais especificamente utilizados para afastar espíritos obsessores ou influências maléficas. É Omulu quem vai fazer afastar essa negatividade e trazer energia positiva para essa pessoa. Depois do ebó, ou limpeza, é imprescindível que se faça uma oferenda para esse orixá. Obaluayê tem um grande poder sobre os eguns (espíritos desencarnados) e ancestrais, controlando-os com seu xaxará. Ele é um ser tão misterioso quanto a própria morte, com a qual tem uma íntima ligação. Conhece todos os seus segredos, sendo muitas vezes confundido com Ikú, o senhor da morte. Omulu é quem faz a limpeza do corpo logo após a morte, permitindo, assim, que as pessoas falecidas se desprendam desse plano de existência. Por esse motivo, é denominado "o senhor das coisas pútridas”. Na África, ele é venerado e temido por seus desígnios, sendo considerado uma figura repressora e perigosa, que pode trazer facilmente a morte, mas, por outro lado, é o grande redentor de todas as mazelas que atingem os seres humanos. Ele é cultuado e adorado com todo o respeito, evitando-se, inclusive, pronunciar seu nome sem um motivo real. As vestes desse vodun são muito especiais e de extrema importância para o seu culto. Suas sacerdotisas ou noviços vestem-se com palhas da costa, não deixando transparecer nenhum detalhe de seu corpo. São figuras misteriosas e austeras, que escondem os segredos da reciclagem da vida. Seu principal símbolo é o xaxará, feito com a palha extraída da folha da palmeira nova; o lagidigbá, feito com o fruto da palmeira ou de chifre de búfalo; e o brajá, cordão confeccionado inteiramente com búzios. Além disso, ele também usa um longo cajado, onde se prendem as três cabaças que contêm os segredos da criação. Esse cajado é muito importante para os feiticeiros dahomeanos. No mês de agosto, nas tradicionais casas de Candomblé do Brasil, são realizadas cerimônias em sua homenagem. Nesse mesmo período, também são reverenciados Nanan e Obessen. Os desígnios de Obaluayê nos faz refletir sobre o valor da vida humana e o quanto ela é frágil. Infelizmente, o ser humano só dá valor ao que tem quando está perdendo, como a saúde, por exemplo.
  
LENDA DE OBALUWAYE

   Nana, esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz! Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos. Yemonjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho. Com seu grande instinto maternal, Yemonjá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas.
Obaluayê cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas. Oyá, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Obaluayê, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam. Quando a poeira assentou, Oyá pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido. Uma outra lenda nos mostra que esse poderoso orixá, em suas andanças pelo mundo, pode presenciar o desenrolar de muitas guerras. Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Obaluayê não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos. As lutas traziam muita dor e destruição, e ninguém mais sabia dar o devido valor à vida humana. Os homens só pensavam em seus interesses materiais. Obaluayê, indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter. O poderoso orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença. De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras. As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte. Um babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Obaluayê havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Desta vida nada se leva a não ser o conhecimento e a experiência que acumulamos. Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade. Mas, infelizmente, nem todos agiram assim. Talvez, por isso, existam tantos povos africanos vivendo do mesmo jeito há milhares de anos, tentando não se desligar da natureza. Na África, ele é venerado e temido por seus desígnios, sendo considerado uma figura repressora e perigosa, que pode trazer facilmente a morte, mas, por outro lado, é o grande redentor de todas as mazelas que atingem os seres humanos. Ele é cultuado e adorado com todo o respeito, evitando-se, inclusive, pronunciar seu nome sem um motivo real. As vestes desse vodun são muito especiais e de extrema importância para o seu culto. Suas sacerdotisas ou noviços vestem-se com palhas da costa, não deixando transparecer nenhum detalhe de seu corpo. São figuras misteriosas e austeras, que escondem os segredos da reciclagem da vida. Seu principal símbolo é o xaxará, feito com a palha extraída da folha da palmeira nova; o lagidigbá, feito com o fruto da palmeira ou de chifre de búfalo; e o brajá, cordão confeccionado inteiramente com búzios. Além disso, ele também usa um longo cajado, onde se prendem as três cabaças que contêm os segredos da criação. Esse cajado é muito importante para os feiticeiros dahomeanos. No mês de agosto, nas tradicionais casas de Candomblé do Brasil, são realizadas cerimônias em sua homenagem. Nesse mesmo período, também são reverenciados Nanan e Obessen. Os desígnios de Obaluayê nos faz refletir sobre o valor da vida humana e o quanto ela é frágil. Infelizmente, o ser humano só dá valor ao que tem quando está perdendo, como a saúde, por exemplo.

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE OBALUWAE                                   

               São pessoas que ocultam sua individualidade sob uma máscara de austeridade.
Têm muita dificuldade em se relacionar, pois são muito fechados e de pouca conversa.
Geralmente apaixonam-se por pessoas totalmente diferentes de si próprias, isto é, por figuras extrovertidas e sensuais. Gostam de ver o ser amado brilhar, embora o invejem.
Os filhos de Obaluayê são irônicos, secos e diretos. Não são pessoas de levar desaforos para casa e nem de falar pelas costas. Odeiam fofocas e vulgaridades do gênero. A solidão é muito peculiar a essas pessoas, devido à sua própria personalidade. Não se sentem satisfeitos quando a vida corre normalmente, precisam mostrar seu sofrimento, exagerando, muitas vezes, nesse tipo de comportamento. São pessoas firmes e decididas, que lutam para conseguir seus objetivos. Geralmente, não sentem medo da morte, pois, no fundo de seu ser, compreendem que ela é apenas uma renovação. Os descendentes desse orixá são muito independentes e têm a necessidade de crescer com suas próprias forças e recursos. Apresentam pouco brilho em seu rosto e um semblante sério, com raros momentos de descontração. Parece que eles carregam, sobre os ombros, todo o sofrimento do mundo. Adoram fazer caridade e aliviar o sofrimento das pessoas.  Os filhos de Obaluayê têm muita afinidade com profissões ligadas à área médica. Muitas dessas pessoas, devido à influência do seu orixá, que comanda os eguns, podem ter experiências sobrenaturais, como visões, sonhos, etc. Uma característica negativa, que pode aparecer nos filhos de Obaluayê, é o masoquismo. Arquétipos: Nunca estão totalmente satisfeitos, sempre querem mais... Mesmo quando acham que tudo está contra eles, persistem em seus propósitos. para os filhos de obaluaiyê importam os fins, não os meios.

  • Omolu / Obaluaye = É como se apresenta o orixá sapata transmutando-se para
    formas conhecidas tais como: Agoro, Telu, Azaoni, Jagun, Possun, Arawe, Ajunsun, Afoman, etc., cada qual com suas particularidades.

Qualidades


v     Jagun Agbagba (ligação com Oyá)
v     Omolu
v     Obaluayie
v     Soponna/Sapata/Sakpatá
v     Afoman/Akavan/Kavungo (ligação com Exú) afomo; contagiante, infeccioso.
v     Savalu/Sapekó (ligação com Nana)
v     Dasa
v     Arinwarun (wariwaru) título de xapanan
v     Azonsu/Ajansu/Ajunsu (ligação com Oxalá, Oxumare)
v     Azoani (ligação com Yemanjá e Oyá)
v     Posun/Posuru
v     Agoro
v     Tetu/Etetu
v     Topodun
v     Paru
v     Arawe/Arapaná (ligação com oyá)
v     Ajoji/Ajagun (ligação com Ogun, Oxagian).
v     Avimaje/Ajiuziun (ligação com Nana, Ossain).
v     Ahoye
v     Aruaje
v     Ahosuji/Segí (Ligação com Yemanjá, Oxumare/Besén).


Obaluaiê:      Reumo
  • Deus da peste, das doenças da pele e, atualmente, da AIDS. É o médico dos pobres.
  • Elemento: terra
  • Personalidade: tímido e vingativo
  • Símbolo: xaxará (feixe de palha e búzios)
  • Dia da semana: segunda-feira
  • Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto
  • Roupa: vermelha e preta, coberta por palha
  • Sacrifício: galo, pato,bode e porco
  • Oferendas: pipoca, feijão preto, farofa e milho, com muito dendê

Arquétipos

São pessoas que trazem no corpo a marca deste orisa, resistente diante das doenças, relacionamento social difícil, os homens geralmente não tem sorte com as mulheres, se for mulher pode não ser boa mãe, gostam da família, dedicam a outras pessoas a ponto de esquecer de si próprias, generosas e com senso de responsabilidade, gostam de se modificar, reservados e caseiros. O que é seu é seu, não admitem que nada lhe seja tomado, tem muita intuição. O arquétipo de Obaluaye é o das pessoas com tendências masoquistas, que gostam de exibir seus sofrimentos e as tristezas das quais tiram uma satisfação íntima. Pessoas que são incapazes de se sentirem quando a vida lhes corre tranqüila. Podem atingir situações materiais invejáveis e rejeitar, um belo dia, todas essas vantagens por causa de certos escrúpulos imaginários. Pessoas que em certos casos sentem-se capazes de se consagrar ao bem-estar dos outros, fazendo completa abstração de seus próprios interesses e necessidades vitais.

Ervas


  • Monam Parietária = brotozinho
  • Bala = Taioba
  • Jamim = Cajá
  • Aferé = Mutamba
  • Obó = Rama de leite
  • Exibatá = Ovo redondo de monãn
  • Jakomijé =Jarrinha
  • Afoxian = Erva de passarinho
  • Já = Capeba
  • Turin = Folha de neve branca
  • Pekulé = Mariazinha
  • Tolu-tolu = Papinho de peru

Oferenda
                          Feijoada para Omulu

Ingredientes:                                  500g. De feijão preto
dendê
1 cebola
côco
Modo de preparo:
Prepare uma feijoada normal, porém tempere-a com cebola e dendê, coloque a feijoada num alguidar e enfeite com côco cortado em tirinhas.

                               Pipoca para Obaluaye
Ingredientes:
300g. De milho pipoca
1 bisteca de porco
dendê
côco
Areia de praia/na falta areia fina de construção peneirada.
Modo de preparo:
Em uma panela ou pipoqueira, aqueça bem a areia da praia, coloque o milho pipoca e estoure normalmente, Coloque num alguidar. Frite a bisteca no dendê e coloque sobre a pipoca, enfeite com côco cortado em tirinhas.

Obalúayé na África

Obalúayé (“Rei Dono da Terra”) ou Omolu (Filho do Senhor) são os nomes geralmente dados a Sànpònná, deus da varíola e das doenças contagiosas, cujo nome é perigoso pronunciarem. Melhor definindo, ele é aquele que pune os malfeitores e insolentes enviando-lhes a varíola.
O culto a Obaluaê, assim como o de Nanã Buruku, do qual trataremos no próximo capítulo, parece fazer parte de sistemas religiosos pré-Odùduà. Nem um nem outro consta da lista dos companheiros de Odùduà quando de sua chegada a Ifé, mas algumas lendas de Ifá dizem que Obaluaê estava já instalado em Òkè Ita e antes da chegada de Orunmilá, que fazia parte daquele grupo.
A antiguidade dos cultos de Obaluaê e Nanã Buruku, freqüentemente confundidos em certas partes da África, é indicada por um detalhe do ritual dos sacrifícios de animais que lhe são feitos. Esse ritual é realizado sem o emprego de instrumentos de ferro, indicando que essas duas divindades faziam parte de uma civilização anterior a Idade do Ferro e à chegada de Ogum (que veio com Odùduà).
Algumas lendas falam de Obaluaê e Nanã Buruku contra Ogum. Os primeiros recusam-se a reconhecer a antiguidade do deus do ferro como sendo anterior à deles próprios e, em conseqüência, de servir-se do ferroem suas atividades.
Essa disputa entre divindades poderia ser interpretada como o choque de religiões pertencentes a civilizações diferentes, sucessivamente instaladas no mesmo lugar e datando de períodos respectivamente anteriores e posteriores à Idade do Ferro. Poderia também ser conseqüência da diferença de origem de povos vindos, uns do leste, com Odùduà, e outros do oeste, anteriores a esse acontecimento.
O lugar de origem de Obaluaê é incerto, mas há grandes possibilidades de que tenha sido em território tapá (ou nupê). Se essa não é sua origem, seria pelo menos um ponto de divisão de crença.
Frobenius escrevia que lhe fora dito em Ibadan que Xapanã tinha sido, antigamente, rei dos tapas.
Uma outra lenda de Ifá confirma essa última suposição: Obaluaê era originário de Empé (Tapá) e havia levado seus guerreiros em expedição aos quatro cantos da terra. Uma ferida feita por suas flechas tornava as pessoas cegas, surdas ou mancas. Obaluaê-Xapanã chegou assim no território mahi no norte do Daomé, abatendo e dizimando seus inimigos, e pôs-se a massacrar e a destruir tudo o que encontrava à sua frente.
Os mahis, porém, tendo consultado um babalaô, aprenderam como acalmar Xapanã com oferendas de pipocas. Assim, tranqüilizado pelas atenções recebidas, Xapanã mandou-os um palácio onde ele passaria a morar, não mais voltando ao país Empê. O Mahi prosperou e tudo se acalmou. Apesar dessa escolha, Xapanã continua a ser saudado como Kábíyèsí Olútápà Lempé (“Rei de Nupê em pais Empê”).
O culto de Sapata, a versão fon de Xapanã, teria seu lugar de difusão na região mahi, na aldeia chamada Pingini Vedji, perto de Dassa Zumê, porém trazido pelos nagôs. Essa tradição é confirmada em Savalu, também na região mahi, onde Sapata Agbosu do bairro Bla, chefe dos sapata da região, foi trazido, segundo dizem, ao templo de Ah_su Soha, o fundador, ou, mais exatamente, o conquistador do lugar que foi o ponto terminal de seu movimento migratório para o norte, migração empreendida para se afastar das regiões destruídas pelas campanhas dos reis de Abomey contra seu vizinhos do leste. Ah_su Soha, durante seu percurso, encontrou em Damê, no rio Weme, os kadjanu, nagôs originários da região do Egbadô, que se dirigiam também para o norte e se juntaram a ele para estabelecerem-se em Savalu com seu deus Agbosu.
As origens nagô-iorubás do vodum Sapata são atestadas pelo fato de que, durante sua iniciação, os futuros sapatasi, pessoas dedicadas a Sapata, são chamados ànàgonu (anago ou nagô) e que a língua usada no ritual de iniciação e nas orações é o ioruba primitivo, ainda falado diariamente pelos Aná.
Pesquisas feitas a respeito de Sapata-Ainon (“Dono da Terra”) entre os fon ajudam a compreender as relações de Sànpònná-Obalúayé, o “Rei Dono da Terra” para os iorubás, com Nanã Buruku, considerada sua mãe, no Brasil. Em Abomey, conta-se que Nàná Bùkùú ou Buruku era mãe de um casal: K_h_su e sua mulher Ny_hwe Ananu, que são os pais de todos os sapata, senhores de muitas doenças temíveis de que falamos em outro trabalho.
O culto de Sapata-Ainon, o Dono da Terra, conheceu em Abomey altos e baixos e tive disputas com a dinastia dos aladah_nu, reis do Daomé. Estes usavam alguns dos títulos gloriosos de Sapata, tais como: Ainon (Senhor da Terra) ou J_h_su (“Rei das Pérolas”). Os Sapatanon, chefes desse culto, foram várias vezes expulsos do reino de Abomey.
Em Dassa Zumê, nos foi contada uma história sobre a origem de Sapata-Sànpònná: “Um caçador Malusi (iniciado de Omolu) viu passar no mato um antílope (agbanlín). Tentou matá-lo, mas o animal levantou uma de suas patas dianteiras e anoiteceu em pleno dia. Pouco depois, a claridade voltou e o caçador viu-se na presença de um Aziza (Arani em ioruba), que declarou ter intenção de dar-lhe um talismã poderoso para que ele colocasse sob um montículo de terra que deveria ser erguido defronte da sua casa. Deu-lhe também um apito, com o qual poderia chamá-lo em caso de necessidade. Sete dias depois, uma epidemia de varíola começou a assolar a região. O Malusi voltou à floresta e soprou o apito. Aziza apareceu e disse-lhe que aquilo que lhe dera era o poder de Sapata e que era preciso construir para ele um templo e todo mundo deveria, doravante, obedecer ao Malusi. Foi assim que Sapata instalou-se em Pingini Vedji”.
As proibições em relação à Sapata são o agbalín, a galinha-d’ angola (sonu), um peixe chamado sosogulo, cujas espinhas são atravessadas, e o carneiro. As oferendas indicadas são os cabritos, galos, feijão e inhame.
Mas, voltando ao culto de Xapanã-Obaluaê, haveria, segundo Frobenius, dois Xapanã: o que já foi referido, de origem tapá, que ele chama de Sànpònná-Airo, e o outro, que teria ido a Oyó, vindo do Daomé, que ele chama de Sànpònná-Boku, aproximando-o assim de Nanã Buruku; o que testemunharia os laços existentes entre Obaluaê e Nanã Buruku.
Existe uma confusão muito grande a respeito de Sànpònná Obalúayé, Omolu e Malu, que se misturam em alguns lugares e, em outros, são deuses distintos.
O que dificulta o problema vem do fato de que Nanã Buruku é igualmente confundida com eles. Para não tornar muito extenso este texto, damos em notas algumas dessas variações. De sua leitura conclui-se que: ou assistimos na África a um sincretismo entre duas divindades vindas uma do leste, Xànpònná-Obalúayé (Nàná-Buruku), e outra do oeste, OmOlu-Malu (Nàná-Brukung), que se juntaram e tomaram o caráter único de Kêto; ou então, tratar-se-ia de uma divindade única, trazida por migrações leste-oeste, como as dos Ga, que foram de Benim para região de Accra, durante o reino de Udagbede, no fim do século XII e levada depois para seu lugar de origem, com um novo nome que, no início, era apenas um epíteto.

Eis alguns oríkì de Xapanã, sob o nome de Omolu, recolhidos em Kêto e Abeokutá:

  • Meu pai, filho de Savé Opara.
  • Meu pai que dança sobre o dinheiro.
  • Ele dorme sobre o dinheiro e mede suas pérolas em caldeirões.
  • Caçador negro que cobre o corpo com palha da costa,
  • Não encontrei outros orixás que façam, com ele, uma roupa de pele adornada com pequenas cabaças.
  • Não queremos falar (mal) de alguém que mata e come gente.
  • Veremos voltar, na estrada do campo, o cadáver inchado daqueles que insultam Omulu.
  • Ninguém deve sair sozinho ao meio-dia.

Essa última saudação é uma alusão ao nome de Olodé, proprietário do exterior (o que esta fora das casas), dando a Omolu e à sua presença habitual nas ruas, em horas de sol intenso, ao meio-dia... E o perigo que podem correr as pessoas desprovidas de talismãs protetores.

Cerimônias para Obaluaê

Uma parte das cerimônias para Obaluaê, em Ifanhim, passa-se no mercado. Isso se justifica pela presença, neste local, de um de seus templos, que tem a mesma forma das barracas do mercado, isto é: quatro pilastras e um simples telhado, onde o lugar consagrado ao deus é coberto por uma grande panela de barro emborcada.
Nos dias de festa, depois de passarem pelo riacho sagrado, os fiéis chegam cedo pela manhã e em grupo, vindos do templo principal.
O axé de Obaluaê é trazido por uma mulher em transe que caminha com passos incertos, seguida por aquelas que levam as gamelas com alimentos. Um elégùn possuído pelo deus a acompanha. Seu corpo foi todo salpicado, dos pés a cabeça, com pó vermelho, osùn (ossum). Ele está envolto num grande pano vermelho, bordado de búzios, que cobre sua cabeça e esconde metade do seu rosto.
O cortejo se dirige ao pequeno templo do mercado e coloca, ao lado da panela de barro, duas lanças de madeira esculpida e colorida, os _k_ de Obaluaê.
O elégùn dança por um instante ao som de um conjunto de três atabaques, diante dos seus fiéis que se prostram com a cabeça no chão.
 Os iniciados têm toda a cabeça recém-raspada, exceto um pequeno tufo na frente. Realiza-se, em seguida, uma refeição comum e, no fim do dia, forma-se novamente o cortejo, voltando ao templo principal, longe dos olhares indiscretos dos não iniciados.
Durante o período de iniciação, os novos seguidores de Obaluaê são pintados com pontos e riscos brancos nos sete primeiros dias, como durante a iniciação dos elégùn de Xangô, descrita no início desse trabalho. É interessante constatar que esse costume continua a ser fielmente observado no Novo Mundo.
Tivemos oportunidade de assistir a belíssimas cerimônias num lugar chamado Isaba, no Holi do ex-Daomé, em 1953, uma época em que o modo de vista nessa região estava ainda preservado dos “ benefícios” das civilizações estrangeiras.
Foi pouco antes de ser aberta a estrada Pobê-Kêto nessa região pantanosa, onde até então nenhum leito de estrada carroçável havia resistido às estações chuvosas.
Essas festas realizavam-se em um templo de Xapanã, que tinham o nome de um rio, Idi. Esse rio corria perto desse local, na região ahori, do lado nigeriano da fronteira.
O templo consistia em um grande cercado rústico, feito de estacas fincadas no chão, delimitando, em plena floresta, o espaço consagrado ao deus da varíola. No centro, encontrava-se um montículo de terra, sobre o qual havia uma panela de barro (ajere), cujo fundo, cheio de orifícios, lembra as cicatrizes deixadas pela varíola, simbolizando a ação do Rei Dono da Terra contra os malfeitores e os insolentes.
 Duas cabanas de estilo holi estavam situadas uma defronte a outra nas duas extremidades. Eram choupanas concebidas para o clima dessa região com paredes de bambu e telhados de palha. Além delas, havia um grande abrigo, sem paredes nem cercas, que servia como local de reunião, cozinha, abrigo contra as intempéries ou dormitório para as pessoas que vinham tomar parte na festa.
Voltando a cerimônia, ela tinha por objetivo mostrar as primeiras danças dos iniciados em público. Na noite da véspera, houve um àìsùn (“não dormir”). Por volta das oito horas da noite, os participantes do culto de Obaluaê estavam reunidos no grande abrigo, sentados sobre esteiras.
Os iniciados estavam deitados no chão, com a cabeça raspada, ar ausente, vestido com um pano bordado de búzios e amarrado no ombro esquerdo. Tinham inúmeras pulseiras, feitas de búzios, amarrados ao redor dos pulsos e dos tornozelos, e traziam a tiracolo longos colares feitos de búzios de maneira a imitar escamas de cobra, semelhantes aos já mencionados a Oxumaré, chamados brajá no Brasil.
Tinham o rosto, as mãos e os pés abundantemente salpicados de pó vegetal vermelho, osùn.
Os atabaques batiam de vez em quando um ritmo vivo e intermitente que animava alguns dos assistentes a dançarem por alguns instantes. Pequenas lamparinas a azeite-de-dendê (fìtílà) iluminavam suavemente a assembléia.
À meia-noite, trouxeram uma taça de barro contendo azeite-dedendê, na borda da qual colocaram mechas de algodão e acenderam-nas enquanto as lamparinas eram apagadas.
Toda a assembléia sentou-se em redor e um dos responsáveis pelo culto pôs-se a lançar substâncias e folhas sobre as chamas, pronunciando palavras constrangedoras.
 Suas mãos passavam e repassavam por cima do fogo, que ora brilhava com muito clarão e crepitava queimando aquelas substâncias, ora vacilava, parecendo extinguir-se, mas reavivava-se com novas doses dos produtos e folhas. A assistência seguia atentamente todas essas operações. Entretanto, a chama terminou por apagar-se. A escuridão foi total e os assistentes soltam um grito prolongado. Quando as lamparinas foram novamente acesas, a taça não estava mais lá. Todo mundo retomou um ar alegre e aliviado. A cinza resultante desse trabalho, ia ser misturada às beberagens e aos banhos rituais dados aos iniciados. Houve uma refeição acompanhada de bebedeira e as coisas acalmaram-se um pouco.
No dia seguinte pela manhã, os iniciados fizeram a tradicional descia ao riacho para as abluções e, no começo da tarde, realizaram-se as primeiras danças em público.
Suas evoluções eram acompanhadas pelas dos seus iniciadores e de diversos sacerdotes de Obaluaê, vindos dos templos das aldeias vizinhas.
Os transes manifestavam-se com grandes gestos de braços, inclinações de corpos para frente e para trás e com tal violência, que os elégùn pareciam estar a ponto de perderem o equilíbrio. Os assistentes vinham logo amparar e abraçar seus corpos agitados.
Logo os transes acalmaram-se e foram todos se inclinar diante do montículo de terra coberto pelo ajere, e puseram-se novamente a dançar. Podia-se observar o ar trocista e desligado dos mais velhos, em contraste da expressão concentrada e tensa dos iniciados.
Esses tinham uma vassoura nas mãos, chamada a África ilew_ e no Brasil “xaxará de Obaluaê”, símbolo da propagação e da cura das doenças.

Obaluaê no Novo Mundo

No Brasil e em Cuba, como na África, Xapanã é prudentemente chamado Obaluaê ou Omolu.
 É sincretizado com São Roque, na Bahia e em Cuba, e com São Sebastião no Recife e no Rio de Janeiro.
As pessoas que lhe são consagradas usam dois tipos de colares: o lagidiba, feito de pequeninos discos pretos enfiados, ou colar de contas marrons com listas pretas.
Quando o deus se manifesta sobre um de seus iniciados, ele é acolhido pelo grito “Atotô!” Suas iaôs dançam inteiramente revestidas de palha da costa. A cabeça também é coberta por um capuz da mesma palha, cujas franjas recobrem seu rosto.
Em conjunto, parecem pequenos montes de palha, em cuja parte inferior aparece pernas cobertas por calças de renda e, na altura da cintura, mãos brandindo um xaxará, espécie de vassoura feita de nervuras de folhas de palmeira, decorada com búzios, contas e pequenas cabaças que se supõem conter remédios.
Dançam curvados para frente, como que atormentados por dores, e imitam sofrimento, as coceiras e os tremores de febre.
A orquestra toca para Obaluaê um ritmo particular chamado opanije, significando em ioruba “ele mata qualquer um e o come”, expressão que encontramos, anteriormente, nas saudações que lhe são dirigidas na África.
A festa anual de oferendas de comidas chama-se “Olubajé”, no decorrer da qual lhe são apresentados pratos de aberem, milho cozido enrolado em folhas de bananeira, carne de bode, galos e pipocas.
Segunda-feira é o dia da semana que lhe é consagrado. Neste dia, o chão do adro da Igreja de São Lázaro, na Bahia, é coberto de pipocas que as pessoas passam em seus próprios corpos para se preservarem de possíveis doenças contagiosas, associando, assim, numa mesma manifestação, a sua fé à força do deus africano e do santo católico.
As proibições alimentares das pessoas dedicadas a Obaluaye são, como na África, carnes de carneiro, peixe de água doce de pele lisa, caranguejos, banana-prata, jacas, melões, abóboras e frutos de plantas trepadeiras.
Diz que é filho de Nanã Buruku e originário, como ela e Oxumaré, do país Mahi. Os “pejís” dessas três divindades são, por esse motivo, reunidos numa mesma cabana, separadas dos outros orixás.

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