quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Odudua (Odùduà)


Odudua (Odùduà)

Odùduà é mais personagem histórico do que orixá; guerreiro temível, invasor e vencedor dos igbôs, fundador da cidade de Ifé e pai de reis das diversas nações iorubás. O Rev. Bolaji Idowu comunga desse ponto de vista quando escreve que “Odùduà tornou-se objeto de culto após sua morte, estabelecido no âmbito dos cultos dos ancestrais” (e não de divindade). Willian Bascom confirma essa opinião quando assinala que as pessoas que cultuam Odùduà não entram em transe. Ora, a entrada em transe é uma característica fundamental no culto dos orixás.
Precisamos falar aqui das extravagantes teorias do Padre Baudin e dos seus compiladores, encabeçados pelo Tenente-Coronel A. E. Ellis, sobre as relações existentes entre Obàtálá e Odùduà. Mal infirmado e dotado de uma imaginação fértil, o reverendo padre expôs no seu livro sobre as religiões de Porto Novo (que não é país ioruba) informações erradas, as quais nos referimos nos capítulos sobre Xangô e Iemanjá.
O Padre Baudin feminiliza Odùduà para fazer dele a companheira de Obàtálá (ignorando que este papel era desempenhado por Yemowo). Fechou esse casal Obàtálá- Odùduà (formado por dois machos) numa cabaça e construiu, partindo desta afirmação inexata, um sistema dualista, recuperado com proveito por posteriores estruturalistas, onde “Obàtálá (macho) é tudo o que está em cima e Odùduà (pseudofêmea), tudo o que está embaixo; Obàtálá é o espiritual, e Odùduà a matéria; Obàtálá é o firmamento e Odùduà é a terra”
A obra de Baudin, copiada por Ellis, foi o ponto de partida de uma série de livros escritos por autores que se copiaram uns dos outros sem colocar em questão a plausibilidade do que fora escrito por seus predecessores. O Padre Labat constatava já com certa ironia, em 1722, que “certas informações foram dadas por uma quantidade de autores” e acrescentava: “mas talvez seja a opinião daquele que escreveu primeiro e que os outros seguiram copiando sem se inquietarem se elas estavam bem ou mal fundamentadas”.
 A respeito de Odùduà, acumulou-se com o tempo uma vasta documentação escrita, tida como erudita porque é constituída de textos, a única valiosa aos olhos letrados, mesmo que estes textos estejam inspirados por escritos anteriores inexatos e contrários à verdade.
 Esta tradução “erudita” continuou a reinar entre os pesquisadores na África. O Padre Bertho publicou em 1950 um artigo, onde ele declarava “ter visto em Porto Novo, no antigo Palácio Akron, um altar dedicado ao casal de divindades Lisa-Odùduà”. “Lisa era representada por uma cabaça branca na frente de um muro pintado de branco, enquanto Odùduà o era por uma cabaça preta sobre um muro preto”. Interessados por essa descrição foram visitar esse lugar, em 1952. A realidade era outra. O Padre Bertho fizera uma terrível mistura, pois Lisa é, para os fon, o nome de Òrìxàálá dos iorubás, como Dudua o é para os habitantes de Porto Novo. O par era formado por uma única divindade. Havia na realidade uma cabaça branca e uma parte do muro pintado de branco, mas era para Dudua (que, segundo Bertho, seria preto). Quanto à cabaça preta no muro preto, eles eram avermelhados, em homenagem a Xangô.
Durante pesquisas que tivemos ocasião de fazer na África, em diversas regiões onde se fala ioruba, jamais encontramos rastros das lendas Baudin-Ellis nos meios tradicionais.
Lembremos que há, entretanto, um casal do qual faz parte Òrìxàálá, mas sua mulher é Yemowo. Ela pode ser vista sob forma de imagens, no ilésìn do templo de Obàtálá-Òrìxàálá, em Ideta-Ilê Ifé. Esta mesma divindade leva os nomes de Lisa e Mawu, adotada pelos fon.Elas são adoradas no templo do bairro Djena, em Abomey, e simbolizam:“Lisa, o princípio masculino, com o oriente, o dia e sol, e Mawu, o princípio feminino, com o ocidente, à noite e a lua”. Mas, insistimos, eles correspondem ao casal Òrìxàálá e Yemowo e não Òrìxàálá e Odùduà.

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