quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ogum


Ogum

Filho de Yemanjá ou Oduá com Oxalá. Está ligado ao mistério das árvores, consequentemente a Oxalá. Seu "assento" está ao pé de um Igí-uyeuè (cajazeira) no Brasil, onde um adàn, akòko ou Àràbà na Nigéria e no Daomé, e rodeado por uma cerca de peregun. Podendo também ficar ao pé do Igí-òpé cujo tronco simboliza a matéria individualizada dos funfun (orixás do branco, particularmente Oxalá), que as folhas brotadas sobre os ramos ou troncos, simbolizam descendentes e que o màrìwò é a representação mais simbólica de Ogún.
Ogún data de tempos proto-históricos, é pré-histórico, violento e pioneiro; suas armas são primeiro de pedra, depois de ferro. Sua primogenitora converte-o em quase irmão gêmeo de Exú. Deus da guerra, imagem arquetípica do soldado, Ogún é também o deus do ferro, da metalurgia. Do ferreiro ao cirurgião, todos os que utilizam instrumentos de ferro (e o aço por conseqüência) em seu trabalho: agricultores, caçadores, açougueiro, barbeiros, marceneiros, carpinteiros, escultores e outros que se juntaram ao grupo desde o início do século, mecânicos e motoristas; rendem homenagem à Ogún. Nesse sentido ele é o arquétipo da conquista da civilização humana, consolidada na idade do ferro. Orixá de personalidade violenta, obstinada, constante, viril, disciplinada, quando não rígida.

  • Akóro Ko l'axo Akóro não tem roupas
  • Màrìwò l'axo Ogún o! Màrìwò veste Ogún
  • Màrìwò Màrìwò

Na sua estreita relação, com a natureza humana, na qual é o regente dos "caminhos" no seu sentido de trabalho, oportunidades profissionais, e ao mesmo tempo "guardião" da casa, é expressa em sua cantiga:

Ogún á jó e màrìwò Ogún Akòró e màrìwò Iwó a gba 'lé bg'ònà
Ogun á jó e màrìwò màá tú yeye Akóro pa lónìí ó Pa o jàre pa léle pa Ogún pa o jàre
(Ogún dançará)
(fronde da palmeira, usada como sua roupa)
(ele ocupará a casa e o caminho)
(fronde da palmeira cresça)

Akóro - uma qualidade de Ogún
Nesta cantiga se faz referência à pa lónìí - corta hoje
Pa o jàre - corte-o, por favor,
Léle - completamente

Nesta toada está se pedindo para Ogun abrir os caminhos: vai cortando, desembaraçando o caminho. Uma outra tradução, fala em matar, de quando os orixás vinham a cavalo, na guerra, e que eles brigavam.
Historicamente, teria sido o filho mais velho de Odùduà, o fundador de Ifé, usando o título de Oniré (Rei de Irê), por se apossar da cidade de Irê, matando seu rei; usava um diadema, chamada àkòró, e isso lhe valeu ser saudado, até hoje, sob os nomes de Ogún Oniré e Ogún Aláàkòró, inclusive no Brasil, trazidos pelos descendentes dos yorubás.
Ogún é único, mas, em Irê, diz-se que ele é composto de sete partes. Ogún méjeje lóòde Iré, frase que faz alusão às sete aldeias, hoje desaparecidas, que existiriam em volta de Irê. O número sete é associado à Ogún e ele; e representado nos lugares que lhe são consagrados, por instrumentos de ferro, em número de sete, catorze ou vinte e um, pendurados numa haste horizontal, também de ferro: lança espada, enxada, torquês, facão, ponta de flecha e enxó, símbolos de suas atividades. Sua cor é o azul escuro. É o primeiro a ser saudado depois que exu é "despachado" (ritual que antecede os Xirés. Ocasião festiva, que as casas de candomblé, cantam para todos os orixás que este tipo de exú, na sua forma negativa de maldoso, funcionando também como uma espécie de guardião do ritual, contra outros tipos de espíritos "não iluminados", não perturbe e não deixe perturbarem o culto). É sempre Ogún que desfila na frente, "abrindo caminho" para os outros orixás (mais uma vez, a indicação da sua função de abrir caminhos), quando eles entram no Ilê nos dias de festa, manifestados e vestidos com suas roupas simbólicas.
Há vários nomes de Ogún fazendo alusão à cidade onde houve seu culto como Ogún
Ondo da cidade de Ondo, Ekiti onde também há seu culto, etc. O òrìsà possui
vários nomes na África como no Brasil e com isso ganha suas particularidades e
costumes.
  • Ogún Olode: epíteto do òrìsà destacando sua condição de chefe dos caçadores.
  • Ogún Je Ajá ou Ogúnjá como ficou conhecido: um de seus nomes em razão de sua preferência em receber cães como oferendas, um de seus mitos o liga a Osagìyán e Ìyémojá quanto a sua origem e como ele ajudou Osalá em seu reino fazendo ambos um trato.
  • Ogún Meje: aspecto do òrìsà lembrando sua realização em conquistar a sétima
    aldeia que se chamava Ire (Meje Ire) deixando em seu lugar seu filho Adahunsi.
  • Ogum Waris: nessa condição o òrìsà se apresenta muitas vezes com forças
    destrutivas e violentas. Segundo os antigos a louvação patakori não lhe cabe, ao
    invés de agradá-lo ele se aborrece. Um de seus mitos narram que ele ficou
    momentaneamente cego.
  • Ogún Onire: Quando passou a reinar em Ire, Oni = senhor, Ire = aldeia.
  • Ogún Masa: Um dos nomes bastante comum do òrìsà, segundo os antigos é um aspecto benéfico do òrìsà quando assim ele se apresenta.
  • Ogum Soroke: apenas um apelido que Ogún ganhou devido a sua condição
    extrovertida, soro = falar, ke= mais alto. Nossa historia registra o porquê o
    chamam assim.
  • Ogún Alagbede: nesse aspecto o òrìsà assume o papel de pai do caçador e esposo de Ìyémojá Ogunte (uma outra versão de Ìyémojá) segundo um de seus inúmeros mitos.
Qualidades


  1. Onire
  2. Alagbede
  3. Omini
  4. Wari
  5. Eroto ndo
  6. Akoro Onigbe
Arquétipos

São pessoas que nada temem atléticos, agressivos, e de mau humor, como marido são brutos, viris e conquistadores, costumam separar e juntar, são rápidos agem sem pensar, ofende-se facilmente, são insistentes naquilo que desejam geralmente emotivos, impacientes e brigões, arrepende-se facilmente, gostam de comer bem, e de beber, temperamento difícil, mas de muita iniciativa. O arquétipo de Ogum é o das pessoas violentas, briguentas e impulsivas, incapazes de perdoarem as ofensas de que foram vítimas. Das pessoas que perseguem energeticamente seus objetivos e não se desencorajam facilmente. Daquelas que nos momentos difíceis triunfam onde qualquer outro teria abandonado o combate e perdido toda a esperança. Das pessoas que possuem humor mutável, passando por furiosos acessos de raiva ao mais tranqüilo dos comportamentos. Finalmente, é o arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes, daquelas que se arriscam a melindrar os outros por certa falta de discrição quando lhe prestam serviços, mas que, devido à sinceridade e fraqueza de suas intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas. Os filhos de ogun possuem temperamento um tanto violento, são impulsivos, briguentos e custam a perdoar as ofensas dos outros. Não são muito exigentes na comida, no vestir, nem tampouco da moradia, com raras exceções  são amigos, porém estão sempre envolvidos com demandas, são mestres do atirar verde pra colher maduro às vezes muitos desconfiados. Desperta sempre interesse nas mulheres, tem seguidos relacionamentos sexuais, mas não tendem a ser fiéis. Possuem uma energia física muito grande, raramente adoecem, seu lema principal é vencer na vida, não importando qual tipo de trabalho ou esforço para conseguir seus ideais.

Ogum
  • Deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso.
  • Elemento: ferro
  • Símbolo: espada
  • Personalidade: impaciente e obstinado
  • Dia da semana: terça-feira
  • Colar: azul-marinho
  • Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo
  • Sacrifício: galo e bode avermelhados
  • Oferendas: feijoada, xinxim, inhame

 Lendas:

Após retornar de suas batalhas vitoriosas e depois de numerosos anos ausentes. Ogun decidiu voltar a irê (primeira cidade construída e sob governo de seu filho) quando chegou teve a impressão que ninguém o reconhecia, tentou conversar com seus súditos e foi ignorado. Ogun cuja paciência é pequena enfureceu-se com o silêncio geral, por ele considerado ofensivo. Começou a quebrar com golpes de sabre os potes e, logo depois, sem poder se conter, passou a cortar as cabeças das pessoas mais próximas, até que seu filho apareceu, oferecendo-lhe as suas comidas prediletas. Quando seu filho lembrou-o que este dia era sagrado e as pessoas não podiam falar por ordem do próprio ogun. Ogun então lamentou seus atos de violência e declarou que já vivera bastante. Baixou a ponta de seu sabre em direção ao chão e desapareceu pela terra adentro com uma barulheira assustadora. Porém antes de desaparecer pronunciou algumas palavras. Palavras ditas por nós, filhos de ogun para aclamarmos sua defesa. Caso estejamos em perigo. Outra lenda nos fala sobre de um dos combates contra sua ex-esposa oyá no qual entre dois golpes deferidos por ambos ao mesmo tempo, ogun se transformou em sete (mejê) e oyá em nove (mesan).

Ervas


Mariwô =Folha de palmeira de dendê
Ìróko= Folha-de-loko
Pepé= Malmequer bravo
Teterégún= Canela-de-macaco
Monam= Parietária
Aferê =Mutamba
Piperégún =Nativo
Obô =Rama de leite
Eregê =Erva-tostão, graminha.
Ibin= Folha-de-bicho
Afoman =Erva-de-passarinho
Omun= Bredo
Orin-rin= Alfavaquinha
Odun-dun =Folha-da-costa (saião)
Teté =Bredo sem espinhos
Já= Capeba
Anó-peipa= Cipó-chumbo


Oferenda

Feijão para Ogum
Ingredientes:
  • 500g. De feijão cavalo
  • 1 cebola
  • 1 vidro de dendê
  • 7 camarões grandes
Modo de preparo:
Cozinhe o feijão e tempere-o com cebola refogada no dendê, coloque em um alguidar e enfeite com os camarões fritos no dendê.
Faça seus pedidos e ofereça a Ogum.

Ògún na África

Ogum, como personagem histórico, teria sido o filho mais velho de Odùduà, o fundador do Ifé. Era um temível guerreiro que brigava sem cessar contra os reinos vizinhos. Dessas expedições, ele trazia sempre um rico espólio e numerosos escravos. Guerreou contra a cidade de Ará e a destruiu. Saqueou e devastou muitos outros Estados e apossou-se da cidade de Ire, matou o rei, aí instalou seu próprio filho no trono e regressou glorioso, usando ele mesmo o título de Oníìré, “Rei de Ire”. Por razões que ignoramos, Ogum nunca teve direito de usar uma coroa (adé), feita com pequenas contas de vidro e ornada por franjas de miçangas, dissimulando o rosto, emblema da realeza para os iorubas. Foi autorizado a usar um simples diadema, chamado àkòró, e isso lhe valeu ser saudado, até hoje sob os nomes de Ògún Oníìré e Ògún Aláàkòró inclusive no Novo Mundo, tanto no Brasil como em Cuba, pelos descendentes dos iorubas trazidos para esses lugares.
Ogum teria sido o mais enérgico dos filhos de Odùduà e foi ele que se tornou regente do reino de Ifé quando Odùduà ficou temporariamente cego. Ogum decidiu, depois de numerosos anos ausente de Irê, voltar para visitar seu filho. Infelizmente, as pessoas celebravam, no dia da sua chegada, uma cerimônia em que os participantes não podiam falar sob nenhum pretexto. Ogum tinha fome e sede; viu vários potes de vinho de palma, mais ignorava que estivessem vazios. Ninguém o havia saudado ou respondido às suas perguntas. Ele não era reconhecido no local por ter ficado ausente por muito tempo. Ogum, cuja paciência é pequena, enfureceu-se com o silêncio geral, por ele considerado ofensivo. Começou a quebrar com golpes de sabre os potes e, logo depois, sem poder se conter, passou a cortar as cabeças das pessoas mais próximas, até que seu filho apareceu, oferecendo-lhe as suas comidas prediletas, como cães e caramujos, feijão regado com azeite-de-dendê e potes de vinho de palma. Enquanto saciava sua fome e sua sede, os habitantes de Ire cantavam louvores onde não faltavam à menção a Ògúnjajá, que vem da frase Ògún jaja (Ogum come cachorro), o que lhe valeu o nome de Ògúnjá. Satisfeito e acalmado Ogum lamentou seus atos de violência e declarou que já vivera bastante. Baixou a ponta de seu sabre em direção ao chão e desapareceu pela terra adentro com uma barulheira assustadora. Antes de desaparecer, entretanto, ele pronunciou algumas palavras. A essas palavras, ditas durante uma batalha, Ogum aparece imediatamente em socorro daquele que o invocou. Porém elas não podem ser usadas em outras circunstâncias, pois, se não encontra inimigos diante de si, é sobre o imprudente que Ogum se lançará.
Como orixá, Ogum é o deus do ferro, dos ferreiros e de todos aqueles que utilizam esse material: agricultores, caçadores, açougueiros, barbeiros, marceneiros, carpinteiros, escultores. Desde o início do século, os mecânicos, os condutores de automóveis ou de trens, os reparadores de velocípedes e de máquinas de costura vieram juntar-se ao grupo de seus fiéis.
Ogum é único, mas, em Ire, diz-se que ele é composto de sete partes. Ògún méjeje lóòde Ire, frase que faz alusão às sete aldeias, hoje desaparecidas, que existiam em volta de Ire. O número 7 é, pois, associado a Ogum e ele é representado, nos lugares que lhe são consagrados, por instrumentos de ferro, em número de sete, catorze ou vinte e um, pendurados numa haste horizontal, também de ferro: lança, espada, enxada, torquês, facão, ponta de flecha e enxó, símbolos de suas atividades.
Uma história de Ifá, publicada em outra obra, explica como o número 7 foi relacionado a Ogum e o número 9 a Oiá-Iansã. Conta à lenda: Oiá era companheira de Ogum antes de se tornar a mulher de Xangô. Ela ajudava o deus dos ferreiros nos seus trabalhos; carregava docilmente seus instrumentos, da casa à oficina, e aí ele manejava o fole para ativar o fogo da forja. Um dia, Ogum ofereceu a Oiá uma vara de ferro, semelhante a uma de sua propriedade, e que tinha o dom de dividir em sete partes os homens e em nove as mulheres que por ela fossem tocados no decorrer de uma briga.
Xangô gostava de vir sentar-se à forja a fim de apreciar Ogum bater o ferro e, freqüentemente, lançava olhares Oiá; esta, por seu lado, também o olhava furtivamente. Xangô era muito elegante, muito elegante mesmo, afirmava o contador da história. Seus cabelos eram trançados como os de uma mulher e usava brincos, colares e pulseiras. Sua imponência e seu poder impressionaram Oiá. Aconteceu, então, o que era de se esperar: um belo dia ela fugiu com ele. Ogum lançou-se a sua perseguição, encontrou os fugitivos e brandiu sua vara mágica. Oiá fez o mesmo e eles se tocaram ao mesmo tempo. E, assim Ogum foi dividido em sete partes e Oiá em nove, recebendo ele o nome de Ògún Mejé e ela o de Iansã, cuja origem vem de Iyámésàn a mãe (transformada em) nove.
Ogum é também representado por franjas de folhas de dendezeiros devidamente desfiadas, chamadas màrìwò. Elas serviam de vestimenta aos Igbá Imolè, os duzentos deuses da direita, dos quais fala Epega, aqueles que, tendo se conduzido mal, foram destruídos por Olodumaré, com exceção de Ogum, que se tornou assim o guia, o condutor dos Irun Imolè, os quatrocentos deuses da esquerda, os únicos, segundo ainda Epega, de que se pode falar sem perigo.
Esses màrìwò, pendurados acima das portas e janelas de uma casa ou à entrada dos caminhos, representam proteção, barreiras contra as más influências.
Os lugares consagrados a Ogum ficam ao ar livre, na entrada dos palácios dos reis e nos mercados.
Estão presentes também na entrada nos templos de outros orixás. São geralmente pedras em forma de bigorna colocadas perto de uma grande árvore, àràbà (Ceiba pentandra), ou protegidas por uma cerca de plantas nativas chamadas pèrègùn (Dracaena fragrans) ou de akòro (Newbouldia laevis). Nesses locais, periodicamente, realizam-se sacrifícios de cachorros e galos, acompanhados de oferendas de vinho de palma e pratos de feijão e inhame cozidos e regados com azeite-de-dendê.
O culto de Ogum é bastante difundido no conjunto dos territórios de língua ioruba e em certos países vizinhos, gêges, como o ex-Daomé e o Togo, onde é chamado de Gun. Ogum é, provavelmente, o deus ioruba mais respeitado e temido. Tomá-lo como testemunha no decorrer de uma discussão, tocando com ponta da língua a lâmina de uma faca, ou um objeto de ferro, é sinal de sinceridade absoluta. Um juramento feito, chamando pelo nome de Ogum é o mais solene e digno de fé que se possa imaginar, comparável àquele que faria um cristão sobre a Bíblia ou um mulçumano sobre o Corão.
A vida amorosa de Ogum foi muito agitada. Ele foi o primeiro marido de Oiá aquela que se tornaria mais tarde mulher de Xangô. Teve também relações com Oxum antes que ela fosse viver com Oxossi e com Xangô. E também com Oba, a terceira mulher de Xangô, e léfunlósunlórí, Aquela-que-pinta-sua-cabeça-com-pós-branco-e-vermelho, a mulher de Òrìxà Oko. Com numerosas aventuras galantes durante suas guerras, tornaram-se, assim, pai de diversos orixás, como Oxossi e Oranian.
A importância de Ogum vem do fato de ser ele um dos mais antigos dos deuses iorubas e, também, em virtude da sua ligação com os metais e aqueles que os utilizam. Sem sua permissão e sua proteção, nenhum dos trabalhos e atividades úteis e proveitosas seria possível. Ele é, então e sempre, o primeiro e abre o caminho para os outros orixás.
Entretanto, certos deuses mais antigos que Ogum, ou originários de países vizinhos aos iorubas, não aceitam de bom grado essa primazia assumida por Ogum, o que deu origem a conflitos entre ele e Obaluaê e Nanã Buruku, dos quais falaremos mais adiante.

Os oríkì de Ogum demonstram seu caráter aterrador e violento:

  • Ogum que, tendo água em casa, lava-se com sangue.
  • Os prazeres de Ogum são os combates e as lutas.
  • Ogum come cachorro e bebe vinho de palmas.
  • Ogum, o violento guerreiro,
  • O homem louco com músculos de aço,
  • O terrível ebora que se morde a si próprio sem piedade.
  • Ogum que come vermes sem vomitar.
  • Ogum que corta qualquer um em pedaços.
  • Ogum que usa um chapéu coberto de sangue.
  • Ogum, tu és o medo na floresta o temor dos caçadores.
  • Ele mata o marido no fogo e a mulher no fogareiro.
  • Ele mata o ladrão e o proprietário da coisa roubada.
  • Ele mata o proprietário da coisa roubada e aquele que critica esta ação.
  • Ele mata aquele que vende um saco de palha e aquele que o comprar.

Mas os guerreiros, mesmo os valorosos, têm algumas vezes momentos de fraqueza.
Uma lenda africana nos conta como Ogum, voltando de uma guerra, em companhia de sua mulher, deixa-se atemorizar pelo coaxar das rãs, e como ele cortou a cabeça de sua mulher, que o havia humilhado contando essa aventura em público. Essa mesma lenda foi publicada por Lydia Cabrera, que a recolheu em Cuba.

Cerimônias para Ogum

Cerimônias dignas de serem mencionadas celebravam-se com regularidade na região de Ahori (no lado nigeriano) ou Holi (no lado daomeano), realizavam-se todas no dia da semana ioruba dedicado a Ogum, ou seja, de quatro em quatro dias. Os Osè nla (grandes domingos) alternavam se com os Osè kékeré (pequenos domingos); os primeiros tinham mais esplendor que os outros. Esta região Ahori- Holi ficava relativamente preservada da ação civilizadora das administrações coloniais e daquelas que as sucederam. A estrada que atravessa Holi, ligando Kêto ao sul de ex-Daomé, só foi aberta em 1953, em virtude da natureza pantanosa de algumas partes dessa região, ou seja, apenas sete anos antes da independência desses paises.

Citamos, a seguir, alguns dos numerosos templos de Ogum nessas paragens:

  • Ogún Igiri em Adja Were,
  • Ogún Edeyi em Ilodo,
  • Ogún Ondó em Pobê, em Igbó-Isso e em Irokonyi,
  • Ogún Igboigbo em Ixedé,
  • Ogún Elénjo em Ibanion e em Modogan,
  • Ogún Agbo em Ixapo,
  • Ogún Olópè em Ixedé Ije,
  • Ogún Abesan em Ibanigbe Fuditi.

Trata-se de um só e único ogum, cujo segundo nome designa ou o lugar de origem, como Ondô, ou o nome do fundador, ou, ainda, o nome de uma divindade como no último da relação, para qual ele serve de guardião.
O aspecto desses templos era notável. Situados, geralmente, em lugares calmos e isolados, no meio de uma clareira cercada de arvores frondosas. Apresentavam a forma semelhante a de uma cabana redonda, com telhado cônico e pontiagudo, precedidos por uma galeria ornada com pilastras esculpidas. Construídos com materiais locais: engradamento de madeira, telhado de palha ou de folhas de palmeira trançadas, paredes feitas de bambu.
Os templos dedicados a Ogún Ondô eram de estilo diferente. Todos eles tinham em comum o telhado de cumeeira alta, com duas águas descendo quase até o chão. Vistos de frente, pareciam uma muralha elevada, tendo, ao nível do solo, uma entrada cuja verga era tão baixa que só se podia penetrar no interior do templo curvando-se muito, de maneira respeitosa, ou então se rastejando com apoio dos cotovelos e joelhos.
O templo de Igbó-Isso, apresentado neste trabalho, perto de Aba, conservou essas características. O de Podê, que conhecemos em 1936, era um edifício majestoso com telhados de palha, alto e pontudo, mas, infelizmente, católicos zelosos, estimulados pelos sermões “incendiários” de um reverendo missionário que, do púlpito, esbravejava sempre contra as religiões pagãs, julgaram por bem ajudar a Providência” ateando fogo ao templo de Ondó numa noite de verão.
Foi uma bela fogueira cuja conseqüência foi a reconstrução do templo, com material à prova de fogo, coberto por um telhado de zinco ondulado, semelhante a um galpão ou um galinheiro.
Para dar graça ao conjunto e, ao mesmo tempo, amedrontar os incendiários, desenharam, acima da porta, dois leopardos mostrando todas as suas garras.
As cerimônias Osè nlà, em Ògún Ondó, realiza-se numa grande praça, de cerca de cem metros de comprimento por trinta de largura, que era antigamente, uma clareira no meio de uma floresta. Com o tempo essa floresta ficou reduzida a uma estreita faixa de árvores, formando uma cortina medíocre entre o recinto sagrado e a cidade. O templo de Ondó esta situado em um dos lados maiores do retângulo.
Defronte, encontra-se outro templo menor e circular, dedicado a Arè, e no fundo, onde devia ser antigamente a entrada da clareira, um templo igualmente circular, de Èsù legbára. Este conjunto se completa por dois pequenos cercados quadrados, de cinqüenta centímetros de lado, chamados idomosun.
Num deles, no começo da cerimônia, colocam-se o osun de cada um dos principais dignitários; o outro é reservado ao osun de Olúponahá ainda, em diversos locais, troncos de árvores deitados no chão, servindo de assento aos diversos participantes da cerimônia.
Os principais oficiantes do culto de Ògún Ondó são:
Aláàsé, responsável pelo àxé do orixá. Ele não entra em transe e seu papel é semelhante ao dos Mogbà Xangô. Aláàsé era antigamente o chefe religioso mais importante da comunidade e é, ainda, saudado com um título de Kábiyèsí, reservado aos reis. Ele senta-se durante a cerimônia ao lado do templo de Ògún Ondó.Saba que é assistente de Aláàsé entra em transe de possessão por Ògun Ondó durante o orô; Okerè, assistente de Saba; são dois em geral, e ambos são possuídos (montados por gùn) por Ògún Ondó. Sentam-se lado a lado, perto do idomosum.Isa, que cuida de Arè e toma lugar perto do seu templo, é durante a cerimônia possuído por esta divindade. Olápòna, que se ocupa de Exu e senta-se perto do seu templo, é por ele possuído por ele muitas vezes, é acompanhado por um Olápòna de um outro templo de Ogún, vindo de alguma cidade vizinha.
Há ainda cerca de outros vinte olóyè, portadores de títulos, que não entram em transe e têm cada um deles, seu lugar reservado, de onde assistem a cerimônia e dela participam. Entre eles há os egbenlá, os soldados de Ogum, armados com grandes facões e longos bastões.
Duas mulheres consagradas a Dúdúa, nome dado na região a Òrìxàálá, sentam-se perto dos Okere, mas permanecem como meras espectadoras e contentam-se em bater em instrumentos de ferro, em sinal de respeitosa atenção, nos momentos mais solenes. Há ainda as ìyàwó (iaôs) de Ondó, que cantam em seu louvor.
Ao lado do templo de Arè instala-se o conjunto, composto de três atabaques e um agogô. Os atabaques são: uma aposi, pequeno tambor em terracota; um ogidan, tambor alongado colocado rente ao chão; e o kele, pequeno tambor com pés.
Os participantes do Osę de Ògún Ondó chegam de manha cedinho. Aláàsé, Saba, os Okęrę, Isa ou os Olúpona vestem-se com um pano colorido, amarrado no ombro direito. Têm na cabeça um gorro de palha pontudo, enfeitado com grandes penas de galo e penas vermelhas da cauda de papagaios. Os pulsos são ornados com numerosas pulseiras de contas de vidro de diversas cores. Eles trazem numa das mãos seus osun de ferro que vão colocar no idomosun. Na outra mão, tem um facão e dois grandes chocalhos (ààjà), que são batidos um no outro enquanto caminham. Olúpôna traz ainda um ogó, bastão esculpido de forma fálica.
Todos vão se sentar em seus respectivos lugares, com ar severo e recolhido. As ìyàwó de Ògún Ondó em seguida trazendo oferendas de alimentos para as divindades: Ògún Ondó, Arę e Èsù. As grandes gamelas são colocadas nas portas dos três templos. Saba, ajudado pelos Okere Isa e os Olúpona levantam-se com a cabeça descoberta, deixando seus gorros, ààjà e facões em seus respectivos lugares e entram em atividade, nos seus templos respectivos, colocados ali uma parte das oferendas preparadas com inhame e feijão, regadas com azeite-de-dendê. Põem uma porção desses alimentos em seus osun para que os antigos titulares do posto, atualmente ocupados por eles, participem também da festa. Em seguida, fazem oferendas de divindade para divindade e para os diversos olóyè. Isso provoca uma série de idas e vindas em que cada divindade recebe, em troca de seus donativos, um contra donativo dos dois outros. Resulta desses intercâmbios uma refeição comunitária em que participam todos os espectadores do osè.
Os oficiantes do culto consultam as divindades utilizando nozes de cola para verificarem se os deuses estão satisfeitos em seguida alguns dos dignitários vão se reunir em um local que era outrora uma clareira adjacente, para deliberarem e comentarem o resultado das consultas. Ao cabo de certo tempo, voltam e sentam-se nos lugares que lhe são reservados.
Um período de calma sucede a toda essa agitação, após o que, os músicos entram em ação. Executam uma série de invocações. Aláposi bate alguns compassos em seu tambor aposi, que está preso entre seus joelhos; Ológidan, cavalgando seu instrumento ogidan colocado no chão, o acompanha. Esses dois tambores formam um conjunto falante, emitem sons ondulados, de acordo com a pressão mais ou menos intensa de uma das mãos do executante sobre os couros dos tambores, invocando os deuses. O terceiro tambor, kele, está no chão, diante de Oníkele, que nele bate com duas varetas numa cadência extremamente rápida. Vez por outra ele é substituído por um dos seus assistentes, que mantém o ritmo, com a mesma cadência acelerada, criando com seu tom agudo uma atmosfera de tensão nervosa que, em certos momentos, torna-se quase insuportável.
O conjunto toca assim, por períodos interrompidos por curtos e repentinos momentos de silêncio.
Essas interrupções contribuem para criar uma sensação de ansiosa expectativa. Na sétima vez, os Olúpôna dão um grito estridente. A expressão de seus rostos transforma-se. Põem gorro pontudo, pegam seus ààjà e seus ogó , com eles tocam três vezes o chão e levantam-se de um salto. Seus gritos são retomados por Saba, pelos dois Okerè, sentados lado a lado, e por Isa. Enquanto os atabaques fazem suas chamadas, todos passam pelas mesmas fases de tensão e de concentração progressivas.
Apertam nervosamente suas mãos, com os dedos entrelaçados, seus músculos se contraem, baixam a cabeça, fazem à testa e cerram os dentes. São, então, possuídos respectivamente por Èsù, Ògún Ondó e Arè. Cada um deles dá um grito estridente e levanta-se de um só impulso, saltando muito alto, e vão, apressadamente, reunir-se diante do templo de Ògún Ondó.
A expressão dos rostos mudou de novo. Agora estão com um ar descontraído, folgazão e vagamente alegre, balançando a cabeça e resmungando frases inacabadas. Caminham com passos irregulares, desajeitadamente, levantando muito os pés. Quando param, eles se estremecem e oscilam para frente e para trás, bem devagar.
O conjunto toca sem parar, mas em surdina. Os elégùn, possuídos pelos deuses, com Olúpona à frente, partem em fila e correm ofegantes, com o corpo inclinado para frente e arrastando os pés. Vão em direção à entrada da clareira e a outros lugares, parando um momento agitado seus ààjà, saúdam os quatro cantos do mundo. Em seguida, vão cumprimentar Aláàsé, que está sentado perto do templo de Ògún Ondó. Aproximam-se um a um, passam cuidadosamente seus ààjà e seu facão para a mão direita e com a esquerda apertam a de Aláàsé, sacudindo-a com força. Tocam três vezes o chão com seus ààjà, entrechocam-nos com força e regularidade e executam assim uma verdadeira música de ferreiros que lembra o som do martelo batendo sobre uma bigorna. Formulam com voz de falsete votos de prosperidade e de felicidade.  Vão em seguida saudar da mesma forma todos os dignitários, os tocadores de atabaques, os _gb_nlá e os ìyàwó de Ògún Ondó. O ritmo da música transforma-se e torna-se cada vez mais rápido. Os elégùn começam então a dançar, lado a lado, como numa quadrilha e seguindo, cuidadosamente o compasso marcado pela música, indo do templo de Ondó ao de Ar_.
Recuando, voltam ao ponto de partida e continuam dançando durante um bom tempo, um pouco pesadamente e em diversas direções, marcando seus movimentos com o som de sinos entrechocados.
A música pára e os elégùn também. Passam a caminhar de um lado para o outro, com passos ora apressados, ora indolentes, mas sempre desajeitados e hesitantes. Eles profetizam, cantarolam e alternadamente sorriem ou ficam carrancudos; levantam as sobrancelhas, arregalam os olhos ou, com ar beato, exprimem votos aos presentes. Por fim, vão se sentar em seu lugar habitual, resignadamente, com a cabeça baixa e o queixo encostado no peito. Por instantes são agitados por tremores, mas pouco a pouco, voltam a si e retomam sua expressão e comportamentos habituais.
Para os fon do Daomé, Gun desempenha o mesmo papel que Ogun dos iorubas, mas como Odùdùa, é desconhecido em Abomey. Gun, aí, é considerado o filho de Lisa e Mawu, versão fon de Orixalá e Yemowo. Maximilien Quénum o compara a Legba e assinala sua presença diante das forjas. Christian Merlo indica que todos os templos têm seu Gun, cuja virtude é fortificar o vodun.

Ogum no Novo Mundo

Ogum no Brasil é conhecido, sobretudo como deus dos guerreiros. Perdeu sua posição de protetor dos agricultores, pois os escravos, nos séculos anteriores, não possuíam interesse pessoal na abundância e na qualidade das colheitas e, sendo assim, não procuravam sua proteção neste domínio. Isso explica, igualmente, pouco a pouco que os iorubas, escravos no Brasil, deram ao Orixá Oko, cujo culto continuou popular na África. Como deus dos caçadores, Ogum foi substituído por Oxossi, trazido à Bahia pólos africanos de Kêto, fundadores dos primeiros candomblés desta cidade.
Ogum recebe na Bahia sete nomes próximos daqueles com os quais ele é designado na África.
Existem algumas variações nas listas dadas pelas pessoas interrogadas, mas os nomes mais freqüentemente mencionados parecem ser:
Ogum Onirê,
Ogum Akorô,
Ogum Alagbedê,
Ogunjá,
Ogum Mejê,
Ogum Omini,
Ogum Warí.
As pessoas consagradas a Ogum usam colares de contas de vidro azul-escuro e, algumas vezes, verde.
Terça feira é o dia da semana que lhe é consagrado. Como na África ele é representado por sete instrumentos de ferro, pendurados em uma haste do mesmo metal, e por franjas de folhas de dendezeiro desfiadas, chamadas màrìwò.
Seu nome é sempre mencionado por ocasião de sacrifícios dedicados aos diversos orixás no momento em que a cabeça do animal é decepada com uma faca – da qual ele é o senhor.
É também o primeiro a ser saudado depois que Exú é despachado. Quando Ogum se manifesta no corpo em transe de seus iniciados, dança com ar marcial, agitando sua espada e procurando um adversário para golpear. É, então, saudado com gritos de “Ogum IEEE!” (“Olá, Ogum!”). É sempre Ogum quem desfila na frente, “abrindo caminho” para os outros orixás, quando eles entram no barracão nos dias de festa, manifestados e vestidos com suas roupas simbólicas.
Na Bahia, Ogum foi sincretizado com Santo Antônio de Pádua. Expressamos já num capítulo precedente nossa surpresa a respeito da aproximação do deus ioruba e esse santo, geralmente representado com um ar doce a envolvente, bem como a propósito das surpreendentes honras militares que lhe foram concedidas. No Rio de Janeiro, é com São Jorge que Ogum foi associado, o que é mais compreensível, pois ele é representado em suas imagens como um valente guerreiro, vestido com uma brilhante armadura, montado em um fogoso cavalo, às curvetas, e armado com uma lança com a qual ele transpassa um dragão encolerizado.
Em Cuba, Ogum é sincretizado com São João Batista e São Pedro.
No Haiti, “a família dos Ogous engloba o conjunto dos loas nagôs, os orixás iorubas. Encontra-se aí: “O pai e chefe dos Ogous, Papa Ogous, sincretizado com São Tiago Maior; Ogou Ferraille, sincretizado com São Felipe; Ogou Olisha (Obatalá) sincretizado com São Raimundo; Ogou Balinjo (que existe na África em Dassa Zumê), sincretizando com São Tiago Menor ou São José; Ogou Djamsan (Iansã-Oiá) e Ossange (Ossain) fazem parte da mesma família dos Ogous, mas não sabemos com que santos eles são sincretizados; “Enfim, Ogou Chango (Xangô), que, sob influência de Cuba, foi sincretizado com Santa Bárbara”. 

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