quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Olódùmarè, o deus supremo.


Olódùmarè, o deus supremo.

Acima dos orixás reina um deus supremo, Olódùmarè, cuja etimologia é duvidosa. É um deus distante, inacessível e indiferente às preces e ao destino dos homens. Está fora do alcance da compreensão humana. Ele criou os orixás para governarem e supervisionarem o mundo. É, pois, a eles que os homens devem dirigir suas preces e fazer oferendas.
Olódùmarè, no entanto, aceita julgar as desavenças que possam surgir entre os orixás. Essa definição parece ser uma tentativa de elaboração de um sistema que centraliza o que era diverso e harmoniza o que era incompatível entre orixás vindos de horizontes muito diferentes, como sugere Léo Frobenius. Apesar de sua posição de sua posição muito exaltada, Olódùmarè não conseguiu, entretanto, resolver o conflito surgido entre Obalúayé e Nana Buruku de um lado e Ògún, do outro.
Admitindo o papel de deus supremo atribuído a Olódùmarè, e se pairarmos acima das sutilezas locais, evitando fazer alusão às incoerências resultantes da pluralidade dos orixás, igualmente poderosos, poderemos elaborar um sistema no qual cada orixá torna-se um arquétipo de atividade, de profissão, de função, complementar uns aos outros, e que representam o conjunto das forças que regem o mundo. É o que exprime algumas histórias de Ifá, que os babalaôs, como as que se referem ao que já foi dito acima: “Os orixás e os ebora são os intermediários entre Olódùmarè e os seres humanos e receberam, por delegação, alguns de seus poderes”. Em tal sistema, os orixás, mais comumente chamados ìmolè pelo Rev.d. Onadele Epega, teriam sido divididos em dois grupos: “Duzentos ìmólè da direita, igba ìmòlè, e quatrocentos da esquerda, Irún ìmólè”.
Uma Fórmula de saudação ritual sobre há qual pouco se sabe e que é ainda pronunciada, no Brasil, pelos descendentes dos iorubás, que vivem sem outra explicação a não ser que, outrora, entre os iorubás, o primeiro algarismo significasse um grande número e o segundo, um grandíssimo número.
Olódùmarè mora no além, Òrun, traduzido geralmente por “céu”. Mas há ai, sem dúvida alguma, incompreensão por parte dos pesquisadores, todos formados com a idéia de que Deus mora no céu. Em outro trabalho, mostramos que, entre 1845 e 1962, dos dezoito autores principais que abordaram o problema do deus supremo entre os iorubás, treze eram missionários católicos e protestantes e só dois eram antropólogos, sendo os outros três um cônsul, um tenente-coronel e um alto funcionário da administração colonial, todos de nacionalidade britânica. Quase todos esses pesquisadores dão Olóòrun, dono do céu, como primeiro nome ao deus supremo dos iorubás e Olódùmarè, como segundo. Nessa pesquisa da definição do deus supremo, como em muitas outras sobre o assunto, cria-se geralmente uma situação inoportuna entre o pesquisador e a pessoa interrogada.
 Esta última pega rapidamente o sentido do pensamento do primeiro e, benevolamente, dá respostas que se ajustam à hipótese da pesquisa. Mesmo se o informante não alterar voluntariamente os fatos, tentará ao menos exprimir-se em termos compreensíveis ao seu interlocutor, resultado daí grande satisfação para este último e enorme prejuízo para a verdade.
Um desses pesquisadores, o Padre Bouche, já reconhecia entre 1866 e 1875, que “os intérpretes negros preocupam-se menos com a exatidão do que com o fato de não descontentarem o branco, e não deixam de lisonjeá-lo pelas interpretações que sabem ser de seu agrado ou pelo menos existentes em suas idéias”. Três desses pesquisadores, de origem iorubá fazem exceção a essas observações: Onadele Epega, que em seu livro nunca emprega a palavra “Olódùmarè ao deus supremo e acentua que Olóòrun é o nome utilizado pelos cristãos e pelos mulçumanos para seus trabalhos de conversão dos infiéis”.
O Reverendo Padre Moulero, o primeiro nagô a ser ordenado padre no Daomé, chegou a escrever que “as populações neste país só acreditavam nos ídolos e não conheciam a Deus. Mas é preciso fazer uma exceção em favor dos nagôs, que sob influência dos muçulmanos, adquiriram (antes da chegada dos missionários católicos) um conhecimento de Deus que se aproxima da noção filosófica cristã”. Para definir Olódùmarè, os “pais do segredo”, nome dado aos adivinhos, dos quais falarem mais adiante.
Algumas tradições pretendem que Òrun não esteja situado no céu, mas debaixo da terra. Há, efetivamente, em Ifé um lugar chamado Òrun Oba Adó, onde haveria “dois poços sem fundo que os antigos diziam ser o caminho mais curto para o além”. Este Òrun é o além, o infinito, o longínquo, em oposição ao ayé, o período de vida, o mundo, o aqui, o concreto. É no Òrun que habitam os montes, os ará Òrun, que voltam periodicamente ao mundo, ayé, para se tornarem novamente seres vivos, ará ayé. “Esses além de assemelharem-se a terra, porém triste e lúgubre”.
As almas apressar-se-iam em voltar para a terra, para a mesma família, da qual alguns membros usam o nome de Babatúndé ou o de Iyátúndé, o que significa “o pai ou a mãe voltou”. Estamos longe do céu paradisíaco e macio dos cristãos e muçulmanos. Os próprios deuses não parecem felizes em seu desterro no Òrunalém, e durante as cerimônias realizadas em seu louvor apressam-se em volta as terras, encarnando-se nos corpos em transe de seus descendentes que lhes são consagrados. A idéia de que Òrunalém está situado embaixo da terra é comprovada durante as oferendas aos orixás,quando o sangue dos animais sacrificados é derramado no ajúbò, um buraco cavado na terra, em frente ao local consagrado ao deus, e os olhares se voltam para o chão e não para o céu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário