quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Texto sobre Oxalá


Oxalá na África

Òrìxànlá ou Obàtálá, “O Grande Orixá ou Rei do Pano Branco”, ocupa uma posição única e incontestável do mais importante orixá e o mais elevado dos deuses iorubás. Foi o primeiro a ser criado por Olodumaré, o deus supremo. Òrìxànlá-Obàtálá é também chamado Òrìxà ou Obà-Ìgbò, o Orixá ou o Rei dos Igbôs. Tinham um caráter bastante obstinado e independente o que lhe causava inúmeros problemas.
            Òrìxànlá foi encarregado por Olodumaré de criar o mundo com o poder de sugerir (àbà) e o de realizar (àsè), razão pela qual é saudado com o título de Aláàbáláàsè. Para cumprir sua missão, antes da partida, Olodumaré entregou-lhe o “saco da criação”. O poder que lhe fora confiado não o dispensava, entretanto, de submeter-se a certas regras e de respeitar diversas obrigações como os outros orixás. Uma história de Ifa nos conta como, em razão de seu caráter altivo, ele se recusou a fazer alguns sacrifícios e oferendas a Exu, antes de iniciar sua viagem para criar o mundo.
Òrìxànlá pôs-se a caminho apoiado num grande cajado de estanho, seu opá oxorò ou paxorô, o cajado para fazer cerimônias.  No momento de ultrapassar a porta do Além, encontrou Exu, que entre as suas múltiplas obrigações, tinha a de fiscalizar as comunicações entre os dois mundos. Exu, descontente com a recusa do Grande Orixá em fazer as oferendas prescritas, vingou-se o fazendo sentir uma sede intensa. Òrìxànlá, para matar sua sede, não teve outro recurso senão o de furar, com o seu paxorô, a casca do tronco de um dendezeiro. Um líquido refrescante dele escorreu: era o vinho de palma. Ele bebeu-o ávida e abundantemente. Ficou bêbado, não sabia, mas onde estava e caiu adormecido. Veio então Alafin-Odùduà, criado por Olodumaré depois de Òrìxànlá é o maior rival deste. Vendo o Grande Orixá adormecido, roubou-lhe “o saco da criação”, dirigiu-se à presença de Olodumaré para mostrar-lhe seu achado e lhe contar em que estado se encontrava Òrìxànlá. Olodumaré exclamou: “Se ele está neste estado, vá você, Odùduà! Vá criar o mundo!” Odùduà saiu assim do Além e se encontrou diante de uma extensão ilimitada de água. Deixou cair à substância marrom contida no “saco da criação”. Era terra. Formou-se então um montículo que ultrapassou a superfície das águas. Aí, ele colocou uma galinha cujos pés tinham cinco garros. Esta começou a arranhar e a espalhar a terra sobre a superfície das águas. Onde ciscava, cobria as águas, e a terra ia se alargando cada vez mais, o que o ioruba se diz ilè nfé, expressão que deu origem ao nome da cidade de ilê Ifé. Odùduà aí se estabeleceu, seguido pelos outros orixás, e tornou-se assim o rei da terra.
Quando Oxalá acordou não mais encontrou ao seu lado o “saco da criação”. Despeitado, voltou a Olodumaré. Este como castigo pela sua embriaguez, proibiu ao Grande Orixá, assim como aos outros de sua família, os orixás funfun, ou “orixás brancos”, beber vinho de palma e mesmo de usar azeite-de-dendê. Confiou-lhe, entretanto, como consolo, a tarefa de modelar no barro o corpo dos seres humanos, aos quais ele, Olodumaré, insuflaria a vida.
Por essa razão, Oxalá é também chamado de Alámorere, o proprietário da boa argila. Pôs-se a modelar o corpo dos homens, mas não levava muito a sério a proibição de beber vinho de palma e, nos dias em que se excedia, os homens saíam de suas mãos contrafeitos, deformados, capengas, corcundas, alguns, retirados do forno antes da hora, saíam mal cozidos e suas cores tornavam-se tristemente pálidas: eram albinos. Todas as pessoas que entravam nessas tristes categorias são-lhe consagradas e tornam-se adoradoras de Orixalá.
Mais tarde, quando Òrìxànlá e Odùduà reencontraram-se, eles discutiram e se bateram com furor. A lembrança dessas discórdias é conservada nas histórias de Ifá, das quais algumas podem ser encontradas em outra obra. As relações tempestuosas entre divindades podem ser consideradas como transposição ao domínio religioso de fatos históricos antigos. A rivalidade entre os deuses dessas lendas seria a fabulação de fatos mais ou menos reais, concernentes à fundação da cidade de Ifé, tinha como o “berço da civilização ioruba e do resto do mundo”.
Obàtálá teria sido o rei dos igbôs, uma população instalada perto do lugar que se tornou mais tarde a cidade de Ifé. A referência a esse fato não se perdeu nas tradições orais no Brasil, onde Orixalá em freqüentemente mencionado nos cantos como Orixá Igbô ou Babá Igbô, “ou orixá” ou “o rei dos igbôs”. Durante seu reinado, ele foi vencido por Odùduà, que encabeçada um exército, fazendo-se acompanhar dos dezesseis personagens, cujos nomes variam segundo os autores. Estes são conhecidos pelo nome de awon agbàgbà, “os antigos”. Esses acontecimentos históricos corresponderiam à parte do mito onde Orixalá foi enviado para criar o mundo (enquanto, na realidade, ele tornou-se o rei dos igbôs) e foi no mito que Odùduà tornou-se o rei do mundo, por ter roubado a Orixalá o “saco da criação” (enquanto, na realidade, ele destronou Òrìxànlá-Obà-Ìgbò, usurpando-lhe o reino).
Odùduà teria vindo do leste, no momento das correntes migratórias causadas por uma invasão berbere no Egito. Esse fato provocou deslocamentos de populações inteiras, expulsando-se progressivamente, umas às outras, em direção ao oeste, para terminar em Borgu, também chamada região dos baribas. Segundo uns Odùduà teria vindo de uma longínqua região do Egito ou mesmo de Meca e, segundo outros, de um lugar perto de Ifé, chamado Oké-Ora, onde os invasores teriam habitado durante várias gerações.
Não foi sem resistência que Òrìxànlá-Ìgbò perdeu seu trono. Ele reagiu com energia e chegou mesmo a expulsar Odòduà de seu palácio, onde já se encontrava instalado. Foi ajudado por seus partidários, Orelúéré e Obawinni, mas foi uma vitória de curta duração, pois, por sua vez, foi expulso por Obameri, partidário de Odùduà, e, assim, Òrìxànlá teve que se refugiar em Ideta-Oko. Obameri instalou-se na estrada que ligava esse lugar e Ifé para impedir, durante muito tempo, a volta de Òrìxànlá a esse lugar. Tendo este perdido o seu poder político, conservou funções religiosas e voltou mais tarde para instalar-se em seu templo em Ideta-Ilê. A coroa de Òrìxànlá-Obà-Ìgbò, tomada por Odùduà, teria sido conservada até hoje no palácio do Oòni, rei de Ifé e descendente de Odùduà. Essa coroa, chamada até, é elemento essencial na cerimônia de entronização de um novo Oòni. Os sacerdotes de Òrìxànlá desempenham um papel importante nessas ocasiões. Eles participam de certos ritos, durante os quais eles próprios colocam a coroa na cabeça do novo soberano de Ifé. Este também, antes da sua coroação, deveria dirigir-se ao templo de Òrìxànlá. Durante as festas anuais, celebradas em Ifé para Òrìxànlá, os sacerdotes desse deus fazem alusão à perda da coroa de Obà-Ìgbò, lembrando seu antigo poder sobre o país antes da chegada de Odùduà e da fundação de Ifé. Além disso. Oòni deve enviar todos os anos um seu representante a Idèta-Oko, onde residiu Òrìxànlá. O representante deve levar oferendas e receber instruções ou a benção de Òrìxànlá.
Os deuses da família de Òrìxànlá-Obàtálá, o “Orixá” ou o “Rei do Pano Branco”, deveriam ser sem dúvida, os únicos a serem chamados orixás, sendo os outros deuses chamados por seus próprios nomes ou, então, sob a denominação mãos geral de ebora para os deuses masculinos. O termo “Imolé”, empregado por Epega, abrangeria o conjunto dos deuses iorubás.
Essa família de orixás funfun, os orixás brancos, é daqueles que utilizam o efun (giz branco) para enfeitar o corpo. São-lhe feitas oferendas de alimentos brancos, como pasta de inhame, milho, caracóis e limo da costa. O vinho e o azeite, provenientes do dendê, e o sal são as principais interdições. As pessoas que lhe são consagradas devem sempre se vestir de branco, usar colares da mesma cor e pulseiras de estanho, chumbo ou marfim.
Os orixás funfun seriam em número de cento e cinqüenta e quatro, dos quais citamos alguns nomes:
  • Òrìxá Olufón ajígúnà koari, “aquele que grita quando acorda”;
  • Òrìxá Ògiyán Ewúléèjìgbò, “Senhor de Ejigbô”;
  • Òrìxá Obaníjìta;
  • Òrìxá Àkirè ou Ìkirè, um valente guerreiro muito rico que transforma em surdo-mudo aquele que o negligencia;
  • Òrìxá Eteko Oba Dugbe, outro guerreiro muito ligado a Òrìxànlá;
  • Òrìxá Alásè ou Olúorogbo, que salvou o mundo fazendo chover num período de seca;
  • Òrìxá Olójo;
  • Òrìxá Àrówú;
  • Òrìxá Oníkì;
  • Òrìxá Onírinjà;
  • Òrìxá Ajagèmò, para o qual, dança-se e representa-se com mímicas um combate entre ele e Olunwi, no qual este último sai vencedor e aprisiona seu adversário. Mais tarde Òrìxá Ajaguma é libertado e volta triunfante para seu templo Ulli Beier sugere que nesta representação poderia haver uma espécie de reconstituição da conquista do reino Igbô por Odùduà, da derrota de Orixalá no plano temporal e de sua vitória final no plano espiritual.
  • Òrìxá Jayé em Jayé;
  • Òrìxá Ròwu em Owu;
  • Òrìxá Òlòbà em Obá;
  • Òrìxá Olúlfin em Iwffin;
  • Òrìxá em Oko;
  • Òrìxá Eguin em Owú, etc.

William Bascom observa que o ritual da adoração de todos esses orixás funfun é tão semelhante que, em alguns casos, é difícil saber se trata de divindades distintas ou simplesmente de nomes e manifestações diferentes de Òrìxànlá.
Òrìxànlá-Obàtálá é casado com Yemowo. Suas imagens são colocadas um ao lado da outra e coberta por traços e pontos desenhados com èfun, no ilésìn, local de adoração desse casal no templo de Ideta- Ilê, no bairro de Itapa, em Ilê-Ifé.
Dizem que Yemowo foi à única mulher de Òrìxànlá-Obàtálá. Um caso excepcional de monogamia entre os orixás e eboras, muito propensos, como vimos nos capítulos precedentes, a ter aventuras amorosas múltiplas e a renovar facilmente seus votos matrimoniais.

Oxalá no Novo Mundo

No Novo Mundo, na Bahia particularmente, Oxalá é considerado o maior orixás, o mais venerável e o mais venerado. Seus adeptos usam colares de contas brancas e vestem-se, geralmente, de branco. Sexta-feira é o dia da semana consagrado a ele. Esse hábito de se vestir de branco na sexta-feira estende-se a todas as pessoas filiadas ao candomblé, mesmo aquelas consagradas a outros orixás, tal é o prestígio de Oxalá. É sincretizado na Bahia com o Senhor do Bonfim, sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais.
Porém, em Cuba, Oxalá é relacionado com Nossa Senhora das Mercês.
Diz-se na Bahia que existem dezesseis Oxalás:


1.     Obatalá,
2.     Odudua,
3.     Orixá Okin,
4.     Orixá Lulu,
5.     Orixá Ko,
6.     Oluiá Babá Roko,
7.     Oxalufã,
8.     Babá Epe,
9.     Babá Lejugbe,
10. Oxaguiã,
11. Orixá Akanjapriku,
12. Orixá Ifuru,
13. Orixá Kere,
14. Babá Igbô,
15. Ajaguna,
16. Olissassa.

Notemos que Babá Lejugbe é sem dúvida Orixá Ijùgbé na África, onde é igualmente chamado Orixá Etèko, um companheiro de Obàlátá; Ajaguma é um dos nomes de Orixá Ogiyán, que na Bahia é também chamado de Babá Elemessô; babá Igbô é o próprio Òrìxàálá; Olissassa no Brasil a versão daomeana (gêge) de Lisa. Quanto a Odùdùa, ele figura nesta lista, sem dúvida por causa de sua presença nos mitos de criação do mundo.
Dos orixás funfun, os mais conhecidos na Bahia são os mesmos dos quais falamos para África, Oxalufã, o Oxalá velho, e Oxaguiã, o jovem.
Existe uma lenda sobre eles, conhecida na Bahia e na África, da qual Lydia Cabrera dá também uma versão que recolheu em Cuba:
Oxalufã, rei de Ifan, decidira visitar Xangô, o rei de Oyó, seu amigo. Antes de partir, Oxalufã consultou um babalaô para saber se sua viagem se realizaria em boas condições. O babalaô respondeu que ele seria vítima de um desastre, não devendo, portanto, realizar a viagem. Oxalufã, porém, tinha um caráter obstinado e persistiu em seu projeto, perguntando que sacrifício poderia fazer para melhorar a sua sorte. O babalaô lhe confirmou que a viagem seria muito penosa, pois teria de sofrer numerosos reveses e que, se não quisesse perder a vida, não deveria jamais recusar os serviços que, por acaso, lhe fossem pedidos, nem reclamar das conseqüências que disso resultassem. Deveria, também, levar três roupas brancas para trocar e sabão. Oxalufã se pôs a caminho e, como fosse velho, ia lentamente, apoiado em seu cajado de estanho. Encontrou, logo depois, Èsù Elèpo Pupa (Exu-Dono-do-Azeite-de-Dendê), sentado à beira da estrada com um barril de Azeite-de-Dendê ao seu lado. Após uma troca de saudações, Exu pediu a Oxalufã que o ajudasse a colocar o barril sobre a sua cabeça. Oxalufã concordou e Exu aproveitou para, durante a operação, derramar, maliciosamente, o conteúdo do barril sobre Oxalufã, pondo-se a zombar dele. Este não reclamou, seguindo as recomendações do babalaô; lavou-se no rio próximo, pôs uma roupa nova e deixou a velha como oferenda. Continuou a andar com esforço, e foi vítima, ainda por duas vezes, de tristes aventuras com Èxù-Eléèdu (‘Exu-Dono-do-Cavão’) e Èxù Aláàdì (‘Exu-Dono-do-Óleo-da-Amêndoa-de-Palma). Oxalufã, sem perder a paciência, lavou-se e trocou de roupa após cada um das experiências. Chegou, finalmente, à fronteira do reino de Oyó e lá encontrou um cavalo que havia fugido pertencente a Xangô. No momento em que Oxalufã quis amansar o animal, dando-lhe espigas de milho, com a intenção de levá-lo ao seu dono, os servidores de Xangô, que estavam à procura do animal, chegaram correndo. Pensando que o homem idoso fosse um ladrão, caíram sobre ele com golpes de cacete e jogaram-no na prisão. Sete anos de infelicidade se abateram sobre o reino de Xangô. A seca comprometia a colheita, as epidemias acabavam com os rebanhos, as mulheres ficavam estéreis. Xangô, tendo consultado um babalaô, soube que toda essa desgraça provinha da injusta prisão de um velho homem. Depois de seguidas buscas e muitas perguntas, Oxalufã foi levado à sua presença e ele reconheceu seu amigo Oxalá. Desesperado pelo que havia acontecido, Xangô pediu-lhe perdão e deu ordem aos seus súditos para que fossem, todos vestidos de branco e guardando silêncio em sinal de respeito, buscar água três vezes seguida a fim de lavar Oxalifã. Em seguida, este voltou a Ifan, passando por Ejigbô para visitar seu filho Oxaguiã, que, feliz por rever seu pai, organizou grandes festas com distribuição de comidas a todos os assistentes.
Essa lenda é comemorada todos os anos na Bahia, em certos terreiros, particularmente naqueles de origem kêto, por um ciclo de festas que se estende por três semanas.
Numa sexta-feira, dia da semana que no Brasil é consagrado a Oxalá, os axés do deus são retirados do seu “pejí” e levados em procissão até uma pequena cabana, feita de palmas traçadas e simbolizando a viagem de Oxalufã e a sua estadia na prisão.
Na sexta-feira seguinte, ou seja, sete dias após, representando sete anos de encarceramento, tem lugar à cerimônia das “Águas de Oxalá”, águas para lavar Oxalá. Todos os que participam da cerimônia chegam à véspera, à noite. O maior silêncio é observado, a partir da quinta-feira ao findar do dia, estendendo-se até a manhã do dia seguinte. Os participantes vão, antes da aurora, pegar as “Águas de Oxalá”, todos vestidos de branco e com a cabeça coberta com um pano igualmente branco. Forma um longo cortejo que vai em silêncio, precedido por uma das mais antigas mulheres dedicadas a Oxalá, que agita, sem parar, um pequeno sino de metal branco, chamado adja. Fazem três viagens até a fonte sagrada. Nas duas primeiras, a água é derramada sobre os axés de Oxalá. Essa parte do ritual é realizada como lembrança das pessoas do reino de Oyó que foram em silêncio e vestidas de branco, buscar água para Oxalufã lavar-se.  Na terceira vez, que ocorre ao nascer do dia, os vasos cheios d’ água são arrumados em volta do axé de Oxalá. A proibição de falar é sustada, cânticos acompanhados pelo ritmo dos tambores são entoados e transes de possessão se produzem entre as filhas de Oxalá, como testemunho da satisfação do deus.
No domingo seguinte, tem lugar uma cerimônia, pouco importante, mas exatamente uma semana depois, realiza-se uma procissão que leva os axés de Oxalá ao seu “pejí” simbolizando a volta de Oxalufã ao seu reino. O terceiro domingo, finalizando o ciclo das cerimônias, é chamado de “Pilão de Oxaguiã” e evoca as preferências gastronômicas desse personagem. Distribuições de comida são realizadas em seu nome, a fim de festejar a volta do pai.  Nesse dia, uma procissão leva ao barracão pratos contendo inhame pilado e milho cozido, sem sal e sem azeite-de-dendê, mas com limo da costa. Pequenas varas de arorí, chamadas ìşán, são entregues aos oxalás manifestados, às pessoas ligadas ao terreiro e aos visitantes importantes. Uma roda se forma, onde os dançarinos passam curvados diante dos orixás, que lhes dão, à passagem, um ligeiro golpe de vara; por seu lado, os que foram assim tocados dão e recebem, ao rodarem, golpes de vara da assistência. Há, sem dúvida, nessa parte do ritual, reminiscência da luta de Ejigbô, no dia da festa de Oxaguiã.
Uma versão sincretizada das “Águas de Oxalá” é a lavagem do chão da Basílica do Senhor do Bonfim que acontece todos os anos na Bahia, na quinta-feira precedente ao domingo do Bonfim. Alguns piedosos católicos tinham o hábito de lavar zelosamente o chão da igreja, um ato de devoção que não é particular a esse templo. No Bonfim, porém, tomou um caráter diferente, pois os descendentes de africanos, movidos por um sentimento de devoção, tanto ao Cristo como ao deus africano, fizeram uma aproximação entre as duas lavagens: a dos axés de Oxalá e aquela do solo da igreja que leva o nome católico do mesmo orixá. Os devotos aparecem em grande número a fim de participarem da lavagem, na quinta-feira do Bonfim.
Essa festa é atualmente, uma das mais populares da Bahia. Nesse dia, as baianas, vestidas de branco, cor de Oxalá, vão em cortejo à igreja do Bonfim. Trazem na cabeça potes contendo água para lavar o chão da igreja e flores para enfeitar o altar. São acompanhadas por uma multidão, onde sempre figurão as autoridade civis do Estado da Bahia e da cidade de Salvador.

Cerimônias para Oxalá
           
As cerimônias públicas para Òrìxànlá em Ilê-Ifé comemoram acontecimentos históricos. Antigamente, as festas duravam nove dias e foram posteriormente reduzidas para cinco. Como estão em concordância com a semana ioruba de quatro dias, começam e terminam no dia consagrado a Obàtálá. Nos dois casos observados, começaram no dia imediato ao primeiro quarto da lua, respectivamente, em 13 de janeiro de 1977 e em 1º de fevereiro de 1978.
Foram realizados sacrifícios de cabras no templo de Obàtálá, no ilésìn de Ideta-Ilê, onde se encontram as imagens de Obàtálá-Òrìxànlá e de sua mulher Yemowo. Uma parte do sangue é derramada sobre as imagens que, em seguida, são lavadas com infusão de folhas colhidas na floresta de Yemowo. Essas folhas são de diferentes variedades, entre as quais figuram as plantas calmantes: Oridúndún (Kalanchoe crenata), àbámodá (Bryophyllum pinnatum),òwú (Gossypium sp.), efinrin (Ocimun viride), rinrin (Peperomnia pellucida), tètèrègun (Costus afer), etc. Em seguida, as duas imagens são enfeitadas com uma série de traços e pontos brancos feitos com efun. Os sacerdotes mais importantes, o Obàlálè, guarda de Obàtálá, e Obàlásè, guarda do Òrìxà Alásè, dançam por muito tempo nesse primeiro dia ao som dos tambores ìgbìn, próprio do culto de Òrìxànlá. São tambores pequenos e baixos, apoiados sobre pés, um macho e outro fêmea. O ritmo é marcado pelos eru, ferros achatados em forma de “T” , batidos uns no outro.
 No dia seguinte, Obàlálè e Obàlásè fazem abluções com as mesmas infusões que serviram na véspera para Òrìxànlá e Yemowo; seus corpos são igualmente enfeitados com desenhos feitos com efun. As imagens são bem enroladas em pano branco e levadas, de manhã cedinho, em procissão desde Ideta- Ilê até Ideta-Oko. Todos os ingredientes da oferenda — ibò òrìxà — a ser feita são levadas até lá. Essa oferenda consta de dezesseis caracóis, dezesseis ratos, dezesseis peixes, dezesseis nozes de cola e limo da costa. O dia será passado em Ideta-Oko, lembrando o exílio de Òrìxànlá-Obà-Ìgbò quando teve de deixar o palácio de Ifé.
 No momento da chegada à floresta, faz-se uma pequena parada diante de uma árvore isìn, “a que é adorada”, e o cortejo penetra mais adentro numa vasta clareira, cercada de grandes árvores e margeada de montículos de terra que parecem ser ruínas de construções antigas. No centro, encontrasse uma espécie de grande pote emborcado com um pequeno furo a meia altura, através do qual pudesse ver o crânio de animais sacrificados nos anos anteriores. As imagens são desenroladas e colocadas no chão, de costas para o pote; Òrìxànlá à direita e Yemowo à esquerda, como no ilésìn em Ideta-Ilê.
Todos os participantes sentam-se em silêncio na floresta calma e sombria. Pouco a pouco a multidão se amontoa. Os tambores ìgbìn tocam de vez em quando, acompanhando os cantos e os oríkì de Obàtálá e Yemowo. Sacrifica-se uma cabra. Faz-se uma adivinhação, com as quatro partes de uma noz de cola, para saber se os deuses estão satisfeitos. A cabeça do animal é separada do corpo e jogada embaixo do grande pote. Recomeçam os cantos acompanhados pelos tambores. Os sacerdotes dançam. Obàlálè, com ar distante e crispado, está em transe, possuído por Òrìxànlá.
Dois mensageiros do _òni de Ifé chegam e param à entrada da floresta, perto da árvore isìn. Traz da parte de seu senhor, descendente de Odòduà, uma cobra como oferenda; antigamente era um ser humano que deveria ser sacrificado.  O animal é levado para uma pequena clareira, contígua ao local da reunião. Já quase à noite e a cabeça do animal é presa no chão por uma forquilha. Obàlásè, com o rosto tenso e entorpecido pelo transe, dança ao redor da pequena clareira e faz várias idas e vindas ao local onde estão as imagens dos orixás.  Em seguida, ele pega um dos ferros eru, em forma de “T” , e com ele bate com força na cabeça da cabra, matando-a. Molha suas mãos no sangue que escorre do corte e vai passá-las na cabeça das imagens de Òrìxànlá e Yemowo.
Um ajudante de Obàlásè arrasta, com a forquilha, a cabra abatida, evitando tocá-la, e a lança no mato. A multidão grita: “Gbákú l_, gbárùn l_!!!” (Leva a morte para longe, leva as doenças para longe.)
Em contraste com a primeira cabra sacrificada, cuja carne foi cozida e distribuída para ser ritualmente comida pelos presentes, em comunhão com os deuses, a carne da segunda cabra, que substituiu a vítima humana, não pode ser tocada nem comida, pois seria atrair sobre si a morte e as doenças... E praticar antropofagia.
Terminada a cerimônia desse dia, as imagens dos deuses são novamente enroladas nos panos brancos, levadas a Ideta-Ilê e reinstaladas no ilésìn até o ano seguinte.
No último dia, consagrado a Yemowo, os sacerdotes e seus auxiliares vão à floresta sagrada dessa divindade, a Ita-Yemowo. Levam para ali um acento de madeira esculpida, àgá Yemowo, devidamente lavado e purificado com a infusão de folhas e enfeitado com traços brancos. Um dos sacerdotes, dedicado a Yemowo, entra em transe, possuído por essa divindade.A expressão de seu rosto, com seu ar distante, lembram o transe de Obàlásè na floresta de Ideta-Oko, porém mais calmo e tranqüilo. Transformando-se momentaneamente em Yemowo, o sacerdote é revestido com um grande pano branco e amarra em sua cabeça um turbante também branco. Seguida por uma grande multidão, na qual predominam as mulheres, algumas das quais tiveram filhos por sua intercessão, Yemowo, encarnava, vai sentar-se em sua cadeira, em frente ao palácio de Òòni. Porém o descendente de Odùduà não se apresenta e Yamowo retira-se para o templo de Ideta-Ilê. Esta visita de Yemowo é repetida duas vezes mais sem que o _òni apareça; entretanto, a cada vez, ele envia nozes de cola a Ideta-Ilê por um mensageiro.
Não obtivemos explicação sobre o sentido preciso dessa parte do ritual. Parece tratar-se de uma referência aos esforços sucessivos que antigamente fez Yemowo para restabelecer a paz entre Òrìxànlá e Odùduà e a acolhida reticente reservada por este último aos esforços de pacificação.
Oxalá
Lembá, Kassulembá, Lambaranganga, Lembadilè, Oulissa, Oulisasa, Obatalá, Orìsànlá, Orixalá muitos são seus nomes, cuja variação mais uma vez, se dá em virtude da região na África que é conhecido. Mais importante e elevado deus yorubá, o primeiro criado por Olodumaré (O Deus supremo), é um orixá funfún (do branco).
Muitas são suas lendas e extensa é sua origem e história na África. Matéria destinada aos estudiosos e mais aprofundados na religião Sendo os mais cultuados no Brasil, Oxalufon "o velho" e Oxaguian "o moço" na sua forma "guerreira" de Oxalá que carrega uma espada, cheio de vigor e nobreza, seu templo principal é em Ejigbo, onde ostenta o título de Eléèjìgbó, rei de Ejigbo.
Na condição de velho e sábio, curvado ao peso dos anos, figura nobre e bondosa, carrega um cajado em que se apóia o Opaxoro, cajado de forte simbologia, utilizado para separação do Orum e o Ayié. No Brasil é o mais venerável e o mais venerado, sua cor é o branco, seu dia a Sexta-feira, motivo pelo quais os candomblecistas em geral usam roupa branca na Sexta-feira e na virada do ano, num claro respeito e devoção a Oxalá. Sua maior festa é uma cerimônia chamada "Águas de Oxalá" que diz respeito a sua lenda dos sete anos de encarceramento, culminando com a cerimônia do "Pilão de Oxaguian", para festejar a volta do pai. Esse respeito advém da sua condição delegada por Olorum, da criação e governo da humanidade.

Qualidades

1.     Oxalá - o sol
2.     Oxaguian - o nascer do sol
3.     Oxanyin - Oxalá moço
4.     Oxadinhan - Oxalá moço
5.     Oxagiriyan - Oxalá feminino
6.     Oulissa - Oxalá no gege
7.     Oxalufan - Oxalá velho
8.     Oxá olokun - Oxalá do mar
9.     Orixalá - Oxalá do meio dia
10. Obi-am - esposa de orixalá
11. Orixá okô - Oxalá da agricultura
12. Obá-okê – Oxalá da montanha
13. Ora minhan - filho de odudua e obatalá
14. Orixanlá - rei dos orixás
15. Ifá - o espírito santo
16. Canaburá - o nascer do dia
17. Obatalá
18. Odudua
19. Okin
20. Lulu
21. Ko
22. Oluiá
23. Babá Roko
24. Babá Epe
25. Babá Lejugba
26. Akanjapriku
27. Ifuru
28. Kere
29. Babá Igbo
30. Ajaguna.



Arquétipos

O arquétipo de personalidade dos devotos de Oxalá é aquele das pessoas calmas e dignas de confiança; das pessoas respeitáveis e reservadas, dotadas de força de vontade inquebrantável que nada pode influenciar. Em nenhuma circunstância modificam seus planos e seus projetos, mesmo a despeito das opiniões contrárias, racionais, que as alertam para as possíveis conseqüências desagradáveis dos seus atos. Tais pessoas, no entanto, sabem aceitar, sem reclamar, os resultados amargos daí decorrentes. O imenso respeito que o Grande Orixá inspira às pessoas do candomblé revela-se plenamente quando chega o momento da dança de Oxalufã, durante o xirê dos orixás. Com essa dança, fecha-se geralmente à noite, e os outros orixás presentes vão cercá-lo e sustentá-lo, levantando a bainha de sua roupa para evitar que ele a pise e venda a tropeçar. Oxalufã e aqueles que o escoltam seguem o ritmo da orquestra, que interrompem a cadência em intervalos regulares, levando-os a dar alguns passos hesitantes, entrecortados de paradas, no decorrer do qual o conjunto de orixás abaixa o corpo, deixa cair os braços e a cabeça, por um breve momento, como se estivessem cansados e sem força. Não é raro ver pessoas que, vindas como espectadoras, deixam-se tomar pelo ritmo, dançam e agitam-se em seus lugares, acompanhando o desfalecer do corpo e a retomada dos movimentos, conjuntamente com os orixás, num afã de comunhão com o Grande Orixá, aquele que foi, em tempos remotos, o rei dos igbôs, longe, bem longe, em Iluayê.

Osolufà - São pessoas calmas e dignas, teimosas, não mudam planos, nem mesmo opinião contraria, assumem as conseqüências dos seus atos. Frágeis, podem ter defeitos de nascença no corpo, friorentos, vingativos, podem ficar afastados dos destinos carnais, alto controle, perfeição, custo simples, observadores, odeiam barulho, sujeira, e desordem, chegam a ser altamente respeitável, não perdoam, irritam os outros com sua prepotência e insegurança, liderança, são orgulhosos, se fizerem para eles haverá retorno.

Osogián - São pessoas altas, robustos e amigos das mulheres, gostam de mandar, vaidosos, dificuldades no empregos, não gostam de ser mandados, procuram pressionar, são faladores, brincalhões, tem muita intuição, são alegres, gostam da vida, não são agressivos, mandões, preguiçosos, sonsos, podem até vir a ser falso, dividem tudo o que tem com os outros.

  • Deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho.
  • Elemento: ar
  • Personalidade: equilibrado e tolerante
  • Símbolo: oparoxó (cajado de alumínio com adornos)
  • Dia da semana: sexta-feira
  • Colar: branco
  • Roupa: branca
  • Sacrifício: cabra, galinha, pomba, pata e caracol
  • Oferendas: arroz, milho branco e massa de inhame

Ervas

Teté - Bredo sem espinhos
Orim-rim - Alfavaquinha
Odum-dum - Folha-da-costa
Ibim - Folha de bicho
Efim - Malva branca
Ilerim - Folha de vintém
Omim - Beldroega
Omim-ojú - Golfo branco
Jacomijé - Jarrinha
Tinin - Folha de neve branca, cana-do-brejo.
Pachorô - Folha da costa branca
Monam - Parietária
Peculé - Parioba
Bala - Taioba
Jamim - Cajá
Ori-dum-dum - Folha da fortuna
Aferê - Mutamba
Obô - Rama de leite
Omim-ibá-ojú - Folha de leite



Oferenda                                  Ebô para Oxalá

Ingredientes:                             500g. De canjica branca
1 cacho de uva Itália (uva branca)
Azeite de oliva
Modo de preparo:
Cozinhe a canjica, coloque numa tigela branca, tempere com oliva mel e um pouco de açúcar, enfeite com o cacho de uva. 

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