quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Xangô


XANGÔ

Teria sido o terceiro Àlàáfìn Òyó - Rei de Oyó -, filho de Oranian e Torosi. Na África sob seus aspectos, histórica e divina. A filha de Elempe, rei dos Tapás, que havia firmado uma aliança com Oranian. Xangô cresceu no país de sua mãe, indo instalar-se mais tarde, em Kòso (Kossô), onde os habitantes não o aceitaram pelo seu caráter violento e imperioso; mas ele conseguiu, finalmente, impor-se por sua força. Em seguida, acompanhado pelo seu povo, dirigiu-se para Oyó, onde estabeleceu um bairro que recebeu o nome de Kossô. Conservou, assim, seu título de Obá Kòso, que, com o passar do tempo, veio a fazer parte de seus oríkì. Xangô, no seu aspecto divino, permanece filho de Oranian, divinizado, porém, tendo Yamase como mãe e três divindades como esposas: Oyá, Oxum e Obá.
Xangô é o irmão mais jovem, não somente de Dadá-Ajaká como também de Obaluaiyè. Entretanto, ao que parece, não são os vínculos de parentesco que permitem explicar a ligação entre ambos, mas sua origem comum em Tapá, lugar onde Obaluaiyè seria mais antigo que Xangô, e, por deferência para com o mais velho, em certas cidades com Seketê e Ifanhim são sempre feitas oferendas a Obaluayiè na véspera da celebração das cerimônias para Xangô.
Xangô é viril e atrevido, violento e justiceiro; castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitores, razão do que de sobra, para ser denominado, deus da justiça. Os èdùn àrá (pedras de raio - na verdade, pedras neolíticas em forma de machado), são consideradas emanações de Xangô, e são colocadas sobre um odó - pilão de madeira esculpida -, consagrado a Xangô. Seu símbolo é oxé - machado de duas lâminas - lembra o símbolo de Zeus em Creta. Esse oxé parece ser a estilização de um personagem carregando o fogo sobre a cabeça; este fogo é, ao mesmo tempo, o duplo machado e lembra de certa forma, a cerimônia chamada ajere, na qual os iniciados de Xangô devem carregar na cabeça uma vasilha cheia de furos, dentro da qual queima um fogo vivo; e, em uma outra cerimônia, chamada àkàrà, durante a qual engolem mechas de algodão embebidas em azeite de dendê em combustão. É uma referência à lenda, segundo a qual Xangô tinha o poder de escarrar fogo graças a um talismã que ele pedira à Oyá buscar no território bariba.
Os adeptos de Xangô, em cerimônias, seguram nas mãos o xéré, um instrumento musical utilizado apenas por eles (desde que autorizados), feito de uma cabaça alongada e contendo no seu interior pequenos grãos, que convenientemente sacudido, imita o ruído da chuva. Em algumas situações também usa um làbà - uma bolsa grande em couro ornamentado -, onde guardaria seus èdùn àrà, que lança sobre a terra durante as tempestades. Suas danças são acompanhadas por um tambor chamado bàtá (tem uma forma de ampulheta, com couro dos dois lados de tamanhos diferentes). São pendurados no pescoço por uma tira de couro, e seus tocadores, os olúbatá, que batem com uma tira de couro no lado menor do tambor, para fazer vibrar o instrumento, e com a mão fazem pressões mais ou menos fortes do outro lado, para obter os tons da língua yorubá. No Recife, seu nome serve mesmo para designar o conjunto de cultos africanos. Suas cores são o vermelho e branco, e sua saudação é: Kawó kabiyèsílé! - Venha ver o Rei descer sobre a terra!!
Em sua dança, o alujá, Xangô brande orgulhosamente seu oxé e assim que a cadência se acelera, ele faz um gesto de quem vai pegar num labá (sua bolsa) imaginário, as pedras de raio, e lançá-las sobre a terra.
Qualidades

Dadá
Afonjá
Lubé
Ogodo
Koso
Jakuta
Aganju
Baru
Oloroke
Airá Intile
Airá Igbonam
Airá Mofe ou Adjaos

  • Deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes.
  • Elemento: fogo
  • Personalidade: atrevido e prepotente
  • Símbolo: machado duplo (oxé)
  • Dia da semana: quarta-feira
  • Colar: branco e vermelho
  • Roupa: branca e vermelha, com coroa de latão
  • Sacrifício: galo, pato, carneiro e cágado
  • Oferendas: amalá (quiabo com camarão seco e dendê)

 XANGO: AIRÁ (AGOYNHAM); AFONJÁ; AGANJÚ; AGOGO; BARU; ALAFIM

Constam ainda Oranian, que seria seu pai; Dadá seu irmào, Aganju um dos seus sucessores, Ogodo que segura dois oxés, sendo o seu èdùn àrà composto de dois gumes e é originário de tapá; Os Airá seriam muito velhos, sempre vestidos de branco e usando segi (contas azuis) em lugar dos corais vermelhos, e seriam originários da região de Savê.

Arquétipos

São pessoas conscientes de uma suposta beleza. Sentimentos ligados à justiça, não admitem serem contrariados, podendo ser violentos e incontroláveis, tendência à obesidade, ligados à mãe, tem poder de liderança, gostam da vida, mas temem a morte, são vingativas, orgulhosas, teimosas, atrevidas, elegantes, gulosos, dorminhocos, são asseados, conquistadores, infiéis, ciumentos, senhores de suas obrigações, às vezes pão duros, não sabem perdoar, mas muito brincalhões. O arquétipo de Xangô é aquele das pessoas voluntariosas e enérgicas, altivas e conscientes de sua importância real ou suposta. Das pessoas que podem ser grandes senhores, corteses, mas que não toleram a menor contradição, e, nesses casos, deixam-se possuir por crises de cólera, violentas e incontroláveis. Das pessoas sensíveis ao charme do sexo oposto e que se conduzem com o tato e encanto no decurso das reuniões sociais, mas que podem perder o controle e ultrapassar os limites da decência. Enfim, o arquétipo de Xangô é aquele das pessoas que possuem um elevado sentido da sua própria dignidade e das suas obrigações, o que as leva a se comportarem com um misto de severidade e benevolência, segundo o humor do momento, mas sabendo aguardar, geralmente, um profundo e constante sentimento de justiça.

Deus do raio, do trovão, da justiça e do fogo. É um orixá temido e respeitado, é viril e violento, porém justiceiro. Costuma se dizer que xangô castiga os mentirosos, os ladrões e malfeitores. Seu símbolo principal é o machado de dois gumes e a balança, símbolo da justiça. Tudo que se refere a estudos, a justiça, demandas judiciais, ao direito, contratos, pertencem a xangô. Ambicioso, chega ao poder destronando seu meio irmão ajaka. Passa, então, a reinar com autoritarismo e tirania, não admitindo que sua atitudes fossem contestadas, o que possivelmente levou-o a cometer injustiças em suas decisões. Usa o poder do fogo como seu símbolo de respeito. Galante e sedutor desperta a paixão da divindade oya, uma de suas três esposas - as outras são oxum e obá -

Arquétipos: Eloqüentes, sociáveis e bons ouvintes. Mas gostam sempre de dar a última palavra, mostrando que também são autoritários. Contraditórios, são aristocráticos e libertinos; infiéis em seus relacionamentos, mas conseguem estabelecer amizades duradouras. Volúveis, esquecem rapidamente as paixões passadas. Estão sempre envolvidos em novas aventuras. E a paixão atual é sempre a maior, a única, a verdadeira...

Lendas: Xangô era rei de oyó, terra de seu pai; já sua mãe era da cidade de empê, no território de tapa. Por isso, ele não era considerado filho legitimo da cidade. A cada comentário maldoso xangô cuspia fogo e soltava faíscas pelo nariz. Andava pelas ruas da cidade com seu oxé, um machado de duas pontas, que o tornava cada vez mais forte e astuto onde havia um roubo, o rei era chamado e, com seu olhar certeiro, encontrava o ladrão onde quer que estivesse. Para continuar reinando xangô defendia com bravura sua cidade; chegou até a destronar o próprio irmão, dadá, de uma cidade vizinha para ampliar seu reino. Com o prestigio conquistado, xangô ergueu um palácio com cem colunas de bronze, no alto da cidade de kossô, para viver com suas três esposas: oyá (yansã) amiga e guerreira; oxum, coquete e faceira e obá, amorosa e prestativa. Para prosseguir com suas conquistas, xangô pediu ao babalaô de oyó uma fórmula para aumentar seus poderes; este entregou-lhe uma caixinha de bronze, recomendando que só fosse aberta em caso de extrema necessidade de defesa. Curioso, xangô contou a yansã o ocorrido e ambos, não se contendo, abriram à caixa antes do tempo. Imediatamente começou a relampejar e trovejar; os raios destruíram o palácio e a cidade, matando toda a população. Não suportando tanta tristeza, xangô afundou terra adentro, retornando ao orun.

Ervas

  • Teté =Bredo sem espinhos
  • Orin-rin = Alfavaquinha
  • Odum-dum = Folha da costa
  • Jacomijé = Jarrinha
  • Bamba =Folha de mibamba
  • Alapá =Folha de capitão
  • Pepê = Folha de loko
  • Oicô = Folha de caruru
  • Xerê-obá = Chocalho de xangô
  • Oxé-obá = Birreiro
  • Monan = Parietária
  • Aferé = Mutamba
  • Obô = Rama de Leite
  • Odidí =Bico-de-papagaio
  • Obaya = Beti-cheiroso - macho ou fêmea.

Lendas

Quando Xangô pediu Oxum em casamento, ela disse que aceitaria com a condição de que ele levasse o pai dela, Oxalá, nas costas para que ele, já muito velho, pudesse assistir ao casamento. Xangô, muito esperto, prometeu que depois do casamento carregaria o pai dela no pescoço pelo resto da vida; e os dois se casaram. Então, Xangô arranjou uma porção de contas vermelhas e outra de contas brancas, e fez um colar com as duas misturadas. Colocando-o no pescoço, foi dizer a Oxum: Veja, eu já cumpri minha promessa. As contas vermelhas são minhas e as brancas, de seu pai; agora eu o carrego no pescoço para sempre.
"Xangô vivia em seu reino com suas 3 mulheres (Iansã, Oxum e Obá), muitos servos, exércitos, gado e riquezas. Certo dia, ele subiu num morro próximo, junto com Iansã; ele queria testar um feitiço que inventara para lançar raios muito fortes. Quando recitou a fórmula, ouviu-se uma série de estrondos e muitos raios riscaram o céu. Quando tudo se acalmou, Xangô olhou em direção à cidade e viu que seu palácio fora atingido. Ele e Iansã correram para lá e viram que não havia sobrado nada nem ninguém. Desesperado, Xangô bateu com os pés no chão e afundou pela terra; Iansã o imitou. Oxum e Obá viraram rios e os 4 se tornaram Orixás."

Oferenda
                                   Amalá para Xangô
Ingredientes:
500gr. De quiabo
1 rabada cortada em doze pedaços
1 cebola
1 vidro de azeite de dendê
250g. de fubá branco
Modo de preparo:
Cozinhe a rabada com cebola e dendê. Em uma panela separada faça um refogado de cebola dendê, separe 12 quiabos e corte o restante em rodelas bem tirinhas, junte a rabada cozida. Com o fubá, faça uma polenta e com ela forre uma gamela, coloque o refogado e enfeite com os 12 quiabos enfiando-os no amalá de cabeça para baixo.

Xàngó na África

Xangô como todos os outros imolè (orixás e ebora), pode ser descrito sob dois aspectos: histórico e divino.
Como personagem histórico, Xangô teria sido o terceiro Aláàfìn Òyó, “Rei de Oyó”, filho de Oranian e Torosi, a filha de Elempê, rei dos tapás, aquele que havia firmado uma aliança com Oranian.
 Xangô cresceu no país de sua mãe, indo instalar-se, mais tarde, em Kòso (Kossô), onde os habitantes não o aceitam por causa de seu caráter violento e imperioso; mas ele conseguiu, finalmente, impor-se pela força. Em seguida, acompanhado pelo seu povo, dirigiu-se para Oyó, onde estabeleceu um bairro que recebeu o nome de Kossô. Conservou, assim, seu título de Oba Kòso, que, com o passar do tempo, veio a fazer parte de seus oríkì. Dadá-Ajaká, filho mais velho de Oranian, irmão consangüíneo de Xangô, reinava então em Oyó. Dadá é o nome dado pelos iorubas às crianças cujos cabelos crescem em tufos que se frisam separadamente. “Ele amava as crianças, a beleza das artes; de caráter calmo e pacífico... e não tinha a energia que se exigia de um verdadeiro chefe dessa época” .
Xangô o destronou e Dadá-Ajaká exilouse em Igboho, durante sete anos de reinado de seu meio-irmão. Teve que se contentar, então, em usar uma coroa feita de búzios, chamada adé de baàyàni. Depois que Xangô deixou Oyó, Dadá-Ajaká voltou a reinar. Em contraste com a primeira vez, ele se mostrou agora valente guerreiro, voltou-se contra os parentes da família materna de Xangô, atacando os tapás.
Frobenius pensava que houvesse dois Xangôs de origens diferentes: o mais velho seria Xàngó-Tápà, de origem nupê (um outro nome que designa os tapas), tendo o carneiro como símbolo; o mais novo seria Xàngó-Mési, de origem borgu (bariba), representado por um guerreiro montado a cavalo. Porém, parece que Frobenius interpretou mal o que poderia lhe ter sido dito, pois, se seu Xàngó-Tápà corresponde a Xangô, terceiro Aláàfìn Oyó, nascido em território tapa, Xàngó-Mési pertencia a uma época posterior ao seu reino. O que poderia ter provocado o erro de Frobenius é, de um lado, o fato de que existiam os Oyó Mési, os sete conselheiros principais de Aláàfìn Oyó (fazedores de reis), e, por outro lado, o povo de Oyó tornou-se famoso por sua cavalaria, organizada quatro reinos depois de Ajaká. Na época do Aláàfìn Onìgbogi, o que não, impediu, entretanto, que suas tropas fossem batidas pelos tapas, com os quais as relações estavam tensas desde a morte de Xangô.
Aláàfìn Onìgbogi teve que fugir para Gberê, em território bariba, onde ficou em exílio, como, aliás, seu sucessor.
Mais tarde, quatro outros Aláàfìn sucessivos viveram em Igboho, perto do território bariba. Esses acontecimentos históricos, posteriores ao reinado de Xangô, puderam fazer crer na existência de um Xàngó-Mési-Bariba, quando, na realidade, tratava de três sucessores em exílio.
Xangô, no seu aspecto divino, permanece filho de Oranian, divinizado, porém, tendo Yamase como mãe e três divindades como esposas: Oiá, Oxum e Oba.
Xangô é viril e atrevido, violento e justiceiro; castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitosos. Por esse motivo, a morte pelo raio é considerada infamante.
Da mesma forma uma casa atingida pelo raio é uma casa marcada pela cólera de Xangô.
O proprietário deve pagar pesadas multas aos sacerdotes do orixá que vem procurar nos escombros os èdùn àrá (pedras de raio) lançados por Xangô e profundamente enterrados no local onde o solo foi atingido.
Esses Òdùn àrá (na realidade, machados neolíticos) são colocados sobre um pilão de madeira esculpida (odó), consagrado a Xangô. Tais pedras são consideradas emanações de Xangô e contém o seu àxé, o seu poder.
O sangue dos animais sacrificados é derramado, em parte, sobre suas pedras de raio para manter-lhes a força e o poder. O carneiro, cuja chifrada tem a rapidez do raio; é o animal cujo sacrifício mais lhe convém.
Faz-lhe também oferendas de amalá, iguaria preparada com farinha de inhame regada com um molho feito com quiabos.
 É, no entanto, formalmente proibido oferecer-lhe feijões brancos de espécie sèsé. Todas as pessoas que lhe são consagradas estão sujeitas à mesma proibição.
O símbolo de Xangô é o machado de duas laminas estilizado, oşé (oxé), que seus elégùn trazem nas mãos quando em transe. Lembra o símbolo de Zeus em Creta.
Esse oxé parece ser a estilização de um personagem carregando o fogo sobre a cabeça; este fogo é, ao mesmo tempo, o duplo machado e lembra, de certa forma, a cerimônia chamada ajere, na qual os iniciados de Xangô devem carregar na cabeça uma jarra cheia de furos, dentro da qual queima um fogo vivo.
Eles não se sentem incomodados por este fardo ardente, demonstrando, através desta prova, que o transe não é simulado.
Os iniciados passam, em seguida, por uma outra prova, chamada àkàrà, durante qual engolem mechas de algodão embebidas em azeite-de-dendê em combustão.
É uma referência à lenda, segundo a qual Xangô tinha o poder de escarrar fogo graças a um talismã que ele mandara Oiá-Iansã buscar no território bariba. Os adeptos de Xangô seguram nas mãos um instrumento musical utilizado apenas por eles, o Xèré (xerê), feito de uma cabaça alongada e contendo no seu interior pequenos grãos. Convenientemente sacudido durante a recitação dos louvores de Xangô, esse instrumento imita o ruído da chuva. Algumas vezes, os elégùn usam também, a tiracolo, um làbà (uma bolsa grande em couro ornamentado), no qual Xangô guardaria seus èdùn àrá, que se lança sobre a terra durante as tempestades.
Tambores de uma forma particular, chamados bàtá, do qual falaremos ainda adiante, são utilizados para acompanhar as danças.
Um testemunho da elegância, do garbo de Xangô e das suas maneiras galantes, com as quais seduziu Oiá-Iansã, a mulher de Ogum, é dado numa história do Ifá já mencionada num capítulo precedente: Entre os clientes de Ogum, o ferreiro, havia Xangô, que gostava de ser elegante a ponto de trançar seus cabelos, como os de uma mulher. Havia feito furos nos lóbulos de suas orelhas, onde usava sempre argolas. Ele usava colares de contas. Ele usava braceletes. Que elegância!!! Esse homem era igualmente poderoso por seus talismãs. Era guerreiro por profissão. Não fazia prisioneiros no decurso de suas batalhas (matava todos os seus inimigos). Por essa razão, Xangô é saudado: Rei de Kossô, que age com independência!”
Outras saudações que seus fies lhe dirigem têm certa graça e mostram a sua forte personalidade:

  • Ele ri quando vai à casa de Oxum.
  • Ele fica bastante tempo em casa de Oiá.
  • Ele usa um grande pano vermelho.
  • Oh! Elefante que caminha com dignidade!
  • Meu senhor, que cozinha o inhame, com ar que escapa de suas narinas.
  • Meu senhor, que mata seis pessoas com uma só pedra de raio.
  • Se franzir o nariz, o mentiroso tem medo e foge.
  • Xangô é o irmão mais jovem, não somente de Dadá-Ajaká como também de Obaluaê. Entretanto, ao que parece, não são os vínculos de parentesco que permitem explicar a ligação do deus do trovão e o das doenças contagiosas, mas sim, prováveis origens comuns em Tapá.

            Neste lugar, Obaluaê seria mais antigo que Xangô, e, por deferência para com o mais velho, em certas cidades como Saketê e Ifanhim são sempre feitas oferendas a Obaluaê na véspera da celebração das cerimônias para Xangô.

Cerimônias de Xangô

As cerimônias que descrevemos, precedidas de sacrifícios e oferendas, foram organizadas em Saketê e Ifanhim pelos ègbè Sàngó desses lugares em honra ao seu orixá. Esses ègbè (sociedades) comportam centenas de membros, na sua maioria elégùn, que representam cada um deles, dentro do ègbè (organização central), uma das numerosas famílias, cada uma delas tem seu lugar de adoração em uma das roças da redondeza dessas cidades. Quando uma dessas famílias organiza uma cerimônia de oferendas ao seu Xangô particular, os membros do ègbè vêm todos participar da festa. No fim da colheita realiza-se, nessas regiões, uma série ininterrupta de festejos dos quais participam todos os membros do ègbè.Trata-se de reuniões onde eles invocam a presença de Xangô, cantam e dançam alegremente com ele.
Essas comemorações têm a duração de cinco, nove ou dezessete dias. Elas começam e terminam sempre num ijò jàkúta o dia dedicado a Xangô, da semana ioruba de quatro dias.Como na cerimônia de iniciação, o começo dessas festas deve estar o mais próximo possível do primeiro quarto da lua.
Na noite da véspera realiza-se a àìsùn (não dormir). Em Saketê isso se passa numa grande praça, diante do templo de Xangô, onde os elégùn vão dançar no dia seguinte ao som dos atabaques bata.  O templo é uma pequena casa de dois compartimentos, que se distingue das casas vizinhas apenas pelo símbolo de Xangô, o oşé, instalado na cumeeira.
Os dignitários do ęgbę Sàngó reúnem-se no primeiro compartimento: Mògbà Sàngó, Iyá Sàngó (Iyá ęgbę), Balę Sàngó, Arupę, Setiki, Jagujagun, Babá ęgbę, Aşoju Oba, Eşinla, etc. No segundo compartimento, encontra-se o odó, o pilão de Xangô, emborcado no chão. Em cima dele, coloca-se uma gamela contendo os èdùn àrá, as pedras de raio, e encostados em sua base estão os oşé (oxés) e os sęrę (xerés). Na parede do fundo, estão pendurados os làbà de couro de que falamos anteriormente.
Os membros do ęgbę Sàngó chegam em pequenos grupos durante a noite, vindo das roças e das  aldeias dos arredores. Os elégùn Sàngó, tanto homens como mulheres, têm os cabelos trançados, numa série de linhas paralelas que vão da testa até a nuca, onde formam uma franja mais ou menos comprida.  Para demonstrar sua situação de “iaôs” usam as mesmas vestimentas femininas, bùbá, uma blusa, e aşò, um pano usado como saia. Para os homens, isso não implica uma perversão ou disfarce, mas uma maneira de demonstrar sua dependência ao deus.
Cada um dos membros do ęgbę Sàngó ao chegar vai prostrar-se diante das pedras de raio colocadas sobre odó. Essa profunda saudação, dobálę, se faz com uma dignidade e uma graça que a civilização moderna dos ocidentais perdeu completamente.
Essas inclinações são feitas com leveza, facilidade e naturalidade: o corpo, lentamente dobrando, repousa um momento no chão, sem medo de se sujar.
A terra é sucessivamente roçada coma testa, o queixo e os lábios. Essas saudações são acompanhadas pelo som dos “xerés”, agitados pelos mogbà e pelos elégùn já presentes. A noite se passa em troca de cumprimentos, comentários sobre os acontecimentos surgidos desde a ultima reunião, a comer e beber alegremente e a dançar, ao som dos atabaques bata, à volta da árvore situada no meio da praça.
Na manhã do primeiro dia, que coincide com ijò jàkútà, do qual já falamos anteriormente, os membros do ęgbę descem ao riacho sagrado, a nlò odò (vamos ao riacho ). O cortejo normalmente é precedido por um elégùn de Exu Elegbará, seguido por uma mulher que carrega umas cabaças contendo oferendas de noz de cola e de álcool, para o riacho. Chegando a beira d’ água, os membros do ęgbę dão ostra de um espírito folgazão, de acordo com o caráter de Xangô, e pode acontecer que um elégùn macho vá banhar-se sozinho, enquanto as mulheres cantam chistosamente: “Okó nlá ba ojú omi jè” (“Um grande pênis perturba a superfície da água” .). Quando o elégùn sai a água, as mulheres vão banhar-se por sua vez cantando ousadamente: “Okó nse bálabàla. Gbòòrò gbòòrò okó. Gbándú gbándú òbò”. (“O pênis é viscoso. Comprido é o pênis. Larga é vagina”.).
São apenas ditos engraçados e alegres, que a moral de forma alguma atinge.
Em seguida, é a volta ao tempo, onde a água, trazida do riacho na cabaça, é colocada diante do odó.
As danças dos elégùn têm inicio no começo da tarde. Eles fazem evoluções pela praça, ao redor da arvore, junto a qual estão instalados os três tocadores de bata. Os homens e mulheres formam grupos separados; os primeiros na parte exterior da roda, e as mulheres na parte inferior. Suas danças seguem o ritmo dos atabaques que batem lentamente no começo e depois mais depressa. As mulheres dançam, a pequenos passos, batendo com os pés, o corpo inclinado para frente e os braços caídos molemente. De vez em quando, elas levantam ligeiramente o busto e inclinam-se de novo. Os homens dançam a passos mais largos e deslizantes, inclinando e levantando o corpo com mais energia; os braços leves erguem-se por momentos com as mãos juntas, costa com costa acima da cabeça; em seguida separam-se, e os braços descem violentamente, indo estalar sobre o tronco. Todos os movimentos são executados pelos elégùn ao mesmo tempo, formando um conjunto perfeito. De vez em quando, executam passos mais acrobáticos, acocoram-se e levantam novamente, rodopiando e marcando um compasso de parada nos momentos precisos, indicados pelos pelo ritmo dos atabaques bata. O ritmo produzido por eles é muito peculiar: nervoso e num tom agudo, seco e breve, que contribui para dar às danças dos elégùn um caráter vivo e arrebatador, que estimula os espectadores a marcarem a cadência com palmas.
Pelo fim da tarde, quando a animação é geral, realiza-se o sacrifício de um carneiro no templo de Xangô. Derramam-se seu sangue nas pedras de raio. A cabeça do animal é cortada.
Ìyá Sàngó, acompanhada por um grupo de mulheres, segura a cabeça cortada e, balançando-a da direita par a esquerda, dá volta em torno da praça, passando entre os grupos de elégùn, até o momento em que Xangô, proclamado sua aceitação à oferenda, apossa-se de um deles. Um só elégùn é escolhido por Xangô entre os numerosos iniciados, que estão todos suscetíveis a serem por ele possuído. O elégùn eleito, homem ou mulher, tornando-se Xangô, toma a cabeça do carneiro sacrificado, aproxima-a de sua boca, para lamber-lhe o sangue. A entrada em transe é muitas vezes violenta e o elégùn debate-se entre os braços de seus companheiros que os sustentam e arrastam-no para o templo.
 Reina um grande entusiasmo na multidão e entre os elégùn, que se põem a girar, correndo ao redor da praça, saltando e girando: “_àngó dé! _àngó dé!! Káwóó Kábiyèsi!” [“Xangô esta chegando!! Venha ver (e admirar) o Rei!”]
 O elégùn possuído sai pouco depois do templo, já calmo e vestido com o traje tradicional de Xangô. Este traje pode ser descrito como uma espécie de grande avental (bàntè) feito com pele de carneiro, coberto de búzios e passando sobre uma porção de xales (ìyèrì) amarrados na cintura e caindo livremente. É Xangô de volta a terra. Traz nas mãos um ou dois oşé. Avança lenta e majestosamente através da multidão, que se inclina a sua passagem. Em sinal de benção, ao passar, ele impõe o oşé nas costas curvadas. Seguido por um grupo de elégùn, Xangô dança ao redor da praça, saudando os atabaques ao passar por eles, agitando seu oşé e gritando de vez em quando, com uma voz estridente: “O kú oooo! O kú oooo!” (“Bom dia! Bom dia!” ).
Os admiradores de Xangô vêm colar dinheiro sobre sua testa molhada de suor e ele agradece-lhes gritando: “O şe un o! O şe un ooo!!!” (“Obrigado! Obrigado!”)
O elégùn permanecerá possuído por Xangô durante cinco, nove ou dezessete dias, duração da cerimônia, mas não permanecerá constantemente comportando-se dessa maneira. O estado de exaltação e de veemência enérgicas e autoritárias que Xangô impõe ao seu elégùn é substituído por um estado de langor, de abatimento e sonolência, durante o qual se entrega os atos de caráter infantil, dito na região ioruba tinu _ru dé [chegado (em seguida) com as bagagens].
A atitude dos que tomam conta dele muda também: respeitosa e temerosa, quando o elégùn está possuído por Xangô, tornam-se divertida e zombeteira quando ele passa ao outro estágio. Eles descrevem-no dizendo: “O şe bi aşiwère”. (Ele porta-se como um louco).
Durante os cinco, nove ou dezessete dias que dura a possessão do elégùn, ele fica sujeito a essas duas espécies de comportamento. Ele “é Xangô! Por várias vezes, particularmente nos momentos de suas aparições em público”.
No programa das atividades, consta em geral uma visita ao mercado, aonde Xangô vai para ser admirado, antes de ir fazer uma visita ao rei do lugar. Tivemos oportunidades de vê-lo entrar nobremente no palácio real Saketê, brandindo seus osé, e sentar-se majestosamente no próprio divã do rei que, por respeito, permanecia de pé em sua presença e o saudava com a cortesia reservada aos mais nobres estrangeiros que por ali passavam.
Há, entretanto uma exceção a essa regra: é em Oyó, onde Xangô foi rei antigamente. O elégùn não pode entrar no palácio ocupado pelo atual Aláàfìn Oyò, seu descendente. Este não deve inclinar-se diante de ninguém, por ser ele o Aláyéluwa “Rei Todo-Poderoso”, devendo, pois, evitar receber seu antepassado em seu próprio palácio.
            Quando a festa termina, o elégùn é levado ao templo de Xangô, onde suas roupas são retiradas. Deitam-no em seguida do lado esquerdo e cobrem-no com um pano que é levantado e agitado para arejar o seu corpo inerte. Ìyá Sàngó passa sobre ele o pano, da cabeça aos pés, e fustiga-o com ele, chamando-o pelo seu nome. Ao terceiro apelo o elégùn levanta-se e senta-se com ar surpreso. Indaga sobre o que passou e por que ele encontra-se sentado, seminu, no templo de Xangô. É tranqüilizado e coloca-se diante dele um èkò (pasta de milho) sobre a qual se derrama água.O elégùn, com as mãos nas costas, inclina-se e engole a pasta de milho; depois ele encosta seu rosto no chão, de um lado e depois do outro, para acalmar Xangô, e levanta-se. Alguém toca com a palma da mão o lugar úmido onde estava o èkò e cobre-o de terra para apagar o rastro. O elégùn inclina-se diante da Ìyá Sàngó, Mogbà e os outros dignitários e vai se sentar num canto, com ar perdido e incerto, até reencontrar sua personalidade antiga, algumas horas mais tarde.

Xangô no novo mundo

O culto de Xangô é muito popular no Novo Mundo, tanto no Brasil como nas Antilhas. No Recife, seu nome serve mesmo para designar o conjunto de cultos africanos praticados no Estado de Pernambuco.
Na Bahia, seus fiéis usam colares de contas vermelhas e brancas, como na África. Quarta-feira é o dia da semana consagrado a ele. Assim que Xangô aparece manifestado em um de seus iniciados, as pessoas o saúdam, gritando: “Kawó-kabiyèsíl_!!” (“Venham ver o Rei descer sobre a Terra!!”).
Os tambores batam não são conhecidos no Brasil, embora ainda o sejam em Cuba, mas os ritmos batidos para Xangô são os mesmos. São ritmos vivos e guerreiros, chamados t_nibobé e alujá, e são acompanhados pelos ruídos dos “xerés”, agitados em uníssono.
No decurso de suas danças, Xangô brande orgulhosamente seu “oxé” e assim que a cadência se acelera ele faz o gesto de quem vai pegar num “labá” imaginário, as pedras de raio, e lança-las sobre a terra. O simbolismo de sua dança deixa, a seguir, aparecer seu lado licencioso e atrevido.
No decorrer de certas festas, Xangô aparece frente a assistência, trazendo sobre a cabeça um “ ajerê” contendo fogo e começa a engolir, como na África, mechas de algodão inflamadas.
Na Bahia, diz-se que existem doze Xangôs: Dadá, Oba Afonjá; Obalubé; Ogodô; Oba Kossô; Jakutá; Aganjú; Baru; Oranian; Airá Intilé, Airá Igbonam, e Airá Adjaosi.
Reina certa confusão nesta lista, pois Dadá é irmão de Xangô; Oranian é seu pai, e Aganju, um de seus sucessores. Também na Bahia acredita-se que Ogodô é originário do território tapá, e que segura dois “oxés” quando dança, sendo o seu ędùn àrá composto de dois gumes. Os Airá seriam Xangôs muito velhos, sempre vestidos de branco e usando contas azuis (sęgi) em lugar de corais vermelhos, como os outros Xangôs. Ao que parece, teriam vindo da região de Savê.
Xangô foi sincretizado com São Jerônimo no Brasil e com Santa Bárbara em Cuba. Já assinalamos, anteriormente, o caráter estranho de semelhantes escolhas.
Na Bahia, quando uma festa é celebrada em honra de Dadá, irmão mais velho de Xangô, a cerimônia toma aspecto de comemoração histórica, sem que os participantes saibam, muitas vezes, a historia dos iorubás. O iaô de Dadá vem dançar frente à assistência, tendo na cabeça uma coroa, “ o adê de baiani” . Logo depois, Xangô, possuindo um de seus iniciados, toma a coroa, colocando-a sobre sua própria cabeça. Após ter dançado assim adornado, por um certo tempo, a coroa é restituída a Dadá.
Esse elemento do ritual parece ser uma reconstituição do destronamento de Dadá-Akajá por Xangô e sua volta ao poder sete anos mais tarde.

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